Dificuldades de aprendizagem: bloqueios cognitivos causados pela inibição do desenvolvimento motor

A criança com dificuldade de aprendizagem só será capaz de se apropriar da linguagem simbólica após a apropriação e domínio das habilidades motoras, tal pensamento nos remete a uma reflexão acerca da importância das aulas de educação física para que os alunos com ou sem dificuldades de aprendizagem, alcancem um
desenvolvimento global satisfatório. Através do estimulo motor nas aulas de ed ucação física é possível corrigir a disfunção psicomotora e promover a maturação neurofuncional nas crianças com dificuldades de aprendizagem.
A educação física adquire papel importante na medida em que estrutura o ambiente adequado para o desenvolvimento motor da criança, oferecendo experiências, apresentando-se como promotora do desenvolvimento global.

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Preferência lateral em indivíduos com síndroma de down e em indivíduos ditos normais

 

M. A. Silva* e O. Vasconcelos**

* Assistente da Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física - Universidade do Porto

** Prof. Auxiliar da Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física - Universidade do Porto

INTRODUÇÃO

Os indivíduos de preferência lateral esquerda não são, pelo menos nos aspectos mais evidentes, fisiologicamente diferentes dos indivíduos de preferência lateral direita. Nasceram, em grande parte dos casos, em famílias destras e estão expostos às mesmas pressões sociais e ambientais no sentido desta mesma preferência, principalmente no que se refere à preferência manual, tal como os destrímanos.

Apesar de todas estas razões, esses indivíduos não deixam de ser sinistrómanos, sendo compreensível que vários investigadores, ao longo dos tempos, tenham colocado hipóteses e avançado explicações que consideram a sinistralidade como condição anormal. Essencialmente, estas razões surgem da noção de que as teorias que propõem a universalidade da preferência pelo lado direito estão correctas e de que os indivíduos que não se enquadram nessas teorias sofrem de alguma patologia.

O mecanismo específico desta pressuposta patologia e a natureza da sua acção têm variado de uma corrente teórica para outra pois, como destacou Peters (1990) num estudo recente sobre a subclassificação dos sinistrómanos não patológicos e a sua relação com as teorias de preferência manual, o problema que se coloca com quaisquer linhas conclusivas neste domínio é que o termo "patológico" não está delimitado com precisão e clareza, justificando frequentemente a falta de coerência e os resultados contraditórios encontrados pelos vários autores.

A incidência de sinistrómanos na população em geral é, aproximadamente, de 8% (Hécaen & Ajuriaguerra, 1964). As relações que ligam os comportamentos ou estados desviantes à sinistralidade poderão diferir mais ou menos, mas todas partem da suposição de que a preferência pelo lado esquerdo é explicada em termos patológicos já que, segundo essas teorias, os factores fisiológico e genético conferem a todos os indivíduos uma preferência pelo lado direito. Assim, tem sido registada uma prevalência de sinistrómanos entre vários grupos clínicos, como por exemplo deficientes mentais, portadores de Síndroma de Down (S.D.), epiléticos, autistas, deficientes auditivos, asmáticos e diabéticos, entre outros (Hécaen & Piercy, 1956; Schonblom, 1977; Pipe, 1987; Lucas et al., 1989; Silva & Vasconcelos, 1993a; 1993b).

Em relação à deficiência intelectual, estudos realizados por Silva & Satz (1979), Porac & Coren (1981), Bishop (1983) e Pipe (1987), permitiram concluir que a incidência de sinistrómanos é bastante superior nesta população quando comparada com indivíduos não deficientes. Silva & Satz (1979) chegaram ao ponto de afirmar que nos deficientes intelectuais a incidência de sinistrómanos era cerca do dobro da da população dita normal. Por sua vez, Silva & Vasconcelos (1993a; 1993b) verificaram a existência de 25% de preferência manual esquerda em jovens com deficiência mental ligeira e moderada, comparativamente a 7.5% em indivíduos ditos normais.

Segundo Porac & Coren (1981), a consistência (intensidade) da preferência lateral é mais fraca nos deficientes intelectuais quando comparada com os não deficientes. Os deficientes intelectuais também apresentam diferenças na incidência da preferência lateral congruente (preferência pelos quatro índices do mesmo lado do corpo) e cruzada (pelo menos um dos índices situa-se do outro lado do corpo), esperando-se encontrar, nesta população, valores mais elevados de preferência lateral cruzada. Silva & Vasconcelos (1993a) confirmaram os autores supracitados, tendo observado em populações deficientes intelectuais valores inferiores de consistência da preferência lateral e percentagens superiores de preferência lateral cruzada.

Relativamente aos indivíduos portadores de S.D., a desordem cromossómica mais comummente ligada à deficiência intelectual, Pipe (1987) encontrou um forte índice de sinistralidade nesta população. A autora comparou a preferência manual e a incidência de sinistralidade familiar em indivíduos com S.D. e em indivíduos normais, sendo a incidência de sinistrómanos nos grupos com atraso superior à do grupo normal. Silva & Vasconcelos (1993b) corroboraram este estudo e verificaram também uma menor intensidade na consistência da preferência lateral. Contudo, no que se refere à preferência congruente ou cruzada, os valores superiores de preferência cruzada surgiram nos indivíduos normais.

A sinistralidade parece emergir, então, como a consequência de algum trauma ou lesão fisiológica que desvia o processo normal que conduz à destralidade. Porém, como a maioria dos sinistrómanos não evidencia qualquer tipo de patologia, o argumento invocado é, geralmente, o de que a lesão não foi grave ou de que terá ocorrido suficientemente cedo na vida do indivíduo de forma a que a plasticidade do processo de desenvolvimento permitisse uma parcial compensação da mesma.

O objectivo deste estudo foi comparar a preferência lateral (mão, pé, olho e ouvido) de indivíduos ditos normais com indivíduos portadores do S.D.. Para cada índice de preferência, as comparações foram feitas relativamente a: (i) percentagens de sinistralidade e destralidade; (ii) intensidade com que as preferências se manifestam; (iii) tipo de preferência congruente ou cruzada.

METODOLOGIA

AMOSTRA

A amostra contemplou 253 indivíduos normais (idade média: 11.3 ± 1.5 anos) de uma escola regular e 97 indivíduos com S.D. (idade média: 17.6 ± 6.14 anos) de várias escolas especiais.

PROCEDIMENTOS

Todos os indivíduos foram testados individualmente, segundo a bateria de Coren et al. (1979). Para cada item os indivíduos foram observados, no mínimo, duas vezes, para confirmar a consistência da resposta. Os quatro itens foram tratados como variável dicotómica e daí inferidos os QLATs (quocientes de lateralidade) que foram calculados da seguinte forma:

QLAT = Respostas D - Respostas E x100

Respostas D + Respostas E

Critério: QLAT £ 0 Sinistrómano

QLAT > 0 Destrímano

 

Os procedimentos estatísticos incluíram testes de hipóteses para diferenças entre proporções e t - student.

O nível de significância mínimo para rejeição da hipótese nula foi admitido em .05.

RESULTADOS

Quadro 1. Percentagens de preferência lateral esquerda e direita em indivíduos não deficientes e em portadores de Síndroma de Down.

 

 

Não deficientes

Síndroma de Down

 EsquerdaDireitaEsquerdaDireita
Manual7.592.532.068.0
Pedal11.588.530.069.5
Visual39.960.143.556.5
Auditiva74.325.766.634.0

 

Todas as comparações entre não deficientes e portadores de S.D., relativas às preferências manual e pedal, foram estatisticamente significativas (p£ .001).

Excepto para o ouvido, os portadores de S.D. apresentaram percentagens superiores de sinistralidade relativamente aos não deficientes.

Quadro 2. Sexo masculino. Percentagens de preferência lateral esquerda e direita em indivíduos não deficientes e em portadores de Síndroma de Down.

 

Não deficientes

Síndroma de Down

 EsquerdaDireitaEsquerdaDireita
Manual8.092.036.463.6
Pedal10.489.627.772.3
Visual41.658.440.659.4
Auditiva76.823.259.141.0

Todas as comparações entre não deficientes e portadores de S.D. relativas às preferências manual, pedal e auditiva foram estatisticamente significativas (p£ .001).

Excepto para o olho e para o ouvido, os portadores de S.D. apresentaram percentagens superiores de sinistralidade relativamente aos não deficientes.

Quadro 3. Sexo feminino. Percentagens de preferência lateral esquerda e direita em indivíduos não deficientes e em portadores de Síndroma de Down.

 

Não deficientes

Síndroma de Down

 EsquerdaDireitaEsquerdaDireita
Manual7.093.022.677.4
Pedal12.587.536.763.3
Visual38.361.750.050.0
Auditiva71.928.180.619.4

Relativamente às preferências manual e pedal, verificaram-se diferenças estatisticamente significativas (p£ .001) quando comparados os dois grupos de indivíduos.

Os portadores de S.D. apresentaram sempre percentagens superiores de preferência lateral esquerda comparativamente aos não deficientes.

Quadro 4. Consistência da preferência lateral esquerda em indivíduos não deficientes e em portadores de Síndroma de Down. Médias e desvios padrões.

 Não deficientesSíndroma de Down
Manual-72.8 ± 42.7-50.5 ± 39.3
Pedal-58.6 ± 50.1-72.4 ± 45.5
Visual-93.1 ± 22.4-73.7 ± 48.0
Auditiva-48.4 ± 50.1-50.0 ± 50.4

Apenas no que concerne à preferência visual, a comparação entre os dois grupos apresentou diferenças estatisticamente significativas (p£ .001).

Os valores mais elevados de consistência para as preferências manual e visual registaram-se no grupo não deficiente. Nos portadores do S.D., a consistência da preferência foi mais elevada para as preferências pedal e auditiva.

Quadro 5. Consistência da preferência lateral direita em indivíduos não deficientes e em portadores de Síndroma de Down. Médias e desvios padrões.

 Não deficientesSíndroma de Down
Manual-97.5 ± 10.9-83.4 ± 24.3
Pedal-100.0 ± 0.0-98.5 ± 8.6
Visual-98.0 ± 9.7-94.9 ± 16.0
Auditiva-100.0 ± 0.0-95.4 ± 19.2

Relativamente à consistência da preferência lateral direita, a comparação entre os dois grupos de indivíduos apresentou diferenças significativas para a preferência manual (p£ .001) e pedal (p£ .01).

O grupo dos não deficientes apresentou sempre valores superiores de consistência lateral direita.

Quadro 6. Percentagens da preferência lateral congruente (esquerda/direita) e cruzada em indivíduos não deficientes e em portadores de Síndroma de Down.

 

Congruente

Cruzada

 EsquerdaDireitaTotal 
Não deficientes3.217.821.079.0
Síndroma de Down2.15.17.292.8

A comparação entre os dois grupos evidenciou diferenças estatisticamente significativas (p£ .001), apresentando os não deficientes valores de preferência lateral congruente superiores (21%) aos portadores de S.D. (7.2%).

DISCUSSÃO

De um modo geral, as perturbações que ocorrem nos indivíduos com S.D. são as mesmas da população em geral, mas a sua expressão é maior e mais severa nestes indivíduos (Varela & Rodrigues, 1990). Esta autora situa-se na linha de pensamento de Hunt (cit. por Varela & Rodrigues, 1990), que realça o facto de que as doenças nos portadores do S.D. devem ser isoladas e tratadas através do quadro defectológico que as define, como no indivíduo dito normal, e não como resultado do próprio síndroma.

Os resultados do presente estudo confirmaram investigações anteriores (e.g. Silva & Vasconcelos, 1993b) que verificaram nos indivíduos com S.D. uma incidência de sinistrómanos muito superior à da população dita normal. Uma possível explicação para o aumento da sinistralidade na população com S.D. é a de que este aumento é devido a uma pequena percentagem de destrímanos que sofreram, em circunstâncias perinatais ou outras, uma lesão do hemisfério esquerdo. Desta, resultaria uma hipofunção da mão direita e uma subsequente mudança na preferência para a mão esquerda. Uma importante implicação emergente desta hipótese é a de que a população de indivíduos portadores de S.D., possuindo preferência manual esquerda, pode ser agrupada em duas categorias: os sinistrómanos "naturais" cuja preferência manual é o resultado de uma variação genética e/ou ambiental, e os sinistrómanos "patológicos" que, se não tivessem sofrido uma lesão no hemisfério esquerdo, teriam desenvolvido uma preferência pela mão direita. Como a maioria dos deficientes do presente estudo tem vivido numa instituição própria, em que as pressões não se exercem com a intensidade das do mundo exterior, a maior incidência de sinistralidade pode ser atribuída a um ambiente mais permissivo.

Shapiro (1975; 1983, cit. Varela & Rodrigues, 1990) confirma esta hipótese, ao sugerir que a multiplicidade de sinais do S.D., a comparação do seu fenótipo com o de outras situações de trissomia e com a população em geral e o aumento da variação dos traços métricos no S.D. não pode ser explicado como resultado directo de um ou de alguns loci do cromossoma 21. Segundo o mesmo autor, a mais importante consequência do cromossoma supranumerário no S.D. é o seu papel na modificação da resposta do organismo no envolvimento pré e posnatal. Através do seu modelo, este autor confere uma maior importância à influência dos factores do envolvimento na produção do fenótipo do S.D., e sugere que este possa ser mais modificável do que se pensa, quer no seu comportamento quer na sua capacidade física.

Contudo, no nosso estudo, a sinistralidade auditiva revelou valores superiores nos indivíduos normais, contrariamente aos outros três índices. Downs & Balkany (1988) sugeriram que os portadores do S.D. apresentavam valores significativamente superiores de perturbações auditivas (cerca de 78%) quando comparados com os indivíduos normais, o que poderá explicar, em parte, o facto de se encontrar invertida a maior percentagem de sinistrómanos nos nossos resultados.

Em relação à preferência visual, as percentagens idênticas de sinistrómanos verificadas nos normais e nos indivíduos com S.D. (39.9% e 43.5%, respectivamente) podem ser justificadas, segundo Niva (1988), pelos facto de estes últimos apresentarem com maior frequência alguns distúrbios visuais, nomeadamente miopia.

O facto de as preferências manual e pedal terem apresentado resultados idênticos e as preferências visual e auditiva terem-se desviado de alguma forma destes resultados, parece ter algum fundamento na explicação de Porac et al. (1980). Segundo os autores, existem várias razões pelas quais não seria adequado descrever a preferência lateral como uma dimensão unitária de origem única. Por exemplo, as mãos e os pés partilham o mesmo tipo e local de controlo motor, mas para os olhos e ouvidos um tal sistema de controlo, claramente lateralizado, não existe, pois a informação dissemina-se pelos dois hemisférios.

Na comparação entre os sexos, e no que concerne à preferência manual, as raparigas, quer normais quer portadores do S.D., apresentaram sempre valores superiores de sinistralidade. O aspecto fisiológico parece não explicar com clareza as diferenças entre os sexos, pois o cérebro feminino apresenta menor assimetria do que o masculino e os homens são mais lateralizados e com maior propensão para o lado esquerdo do que as mulheres (Porac & Coren, 1981). Já que o aspecto fisiológico não explica com clareza as eventuais diferenças entre os sexos, estes autores sugeriram que as mulheres, além de serem mais susceptíveis às pressões sócioculturais e ambientais do que os homens, são também mais do que estes submetidas a um rigoroso processo de socialização. Desde muito cedo são instruídas, por exemplo, nas tarefas domésticas, o que as obriga a utilizar a mão direita quer por aprendizagem, quer por imitação, de uma forma mais frequente e hábil do que os rapazes.

Considerando a consistência da preferência lateral, a que diz respeito ao lado esquerdo e aos indivíduos com S.D. foi, no geral, menos intensa do que a do lado direito e a dos indivíduos normais.

Em relação à inferior intensidade com que a consistência lateral esquerda se manifesta, sugerimos que, para conseguir sobreviver num mundo lateralizado "à mão direita", os sinistrómanos desde muito cedo aprendem a executar com sua mão preferida muitas actividades que os destrímanos nunca poderão nem precisarão de executar com a esquerda. O resultado final traduz um certo grau de ambidestria, alguma eventual desorganização da orientação espacial e uma perda na consistência com que a preferência lateral, nomeadamente a manual, se manifesta.

Por outro lado, Beck & Dustman (1975) sugerem que o processo que contribui para um aumento do grau de consistência das preferências laterais ao longo da vida parece estar ausente na formação das preferências laterais dos indivíduos com algum atraso.

No que concerne ao tipo cruzado ou congruente de preferência lateral, verificámos valores bastante superiores de preferência cruzada nos indivíduos portadores de S.D.. Orton (1937), estudando as preferências manual e visual, concluiu também que o tipo de preferência cruzada tende a ser mais frequente nas amostras clínicas. Estes resultados foram confirmados por estudos posteriores (e.g. Hécaen & Ajuriaguerra, 1964; Critchley, 1970) no domínio da neuropatologia das dificuldades de aprendizagem e das dislexias, onde foram encontrados índices elevados de preferência cruzada mão-olho. Assim, a confirmar-se a hipótese de que ocorrem processos naturais que orientam, ao longo da vida do indivíduo, para um aumento da preferência congruente em detrimento da cruzada, esses processos parecem estar ausentes na formação das preferências laterais dos indivíduos portadores de S.D..

Por conseguinte, os valores superiores de preferência cruzada parecem resultar das características inerentes à própria deficiência embora, segundo Varela & Rodrigues (1990), com excepção do cromossoma supranumerário 21 e da deficiência mental, não existe outra condição observada que seja comum em todos os indivíduos com S.D..

CONCLUSÕES

- Os portadores de S.D. apresentaram percentagens significativamente superiores de sinistralidade relativamente às preferências manual e pedal.

- Considerando a preferência manual, a diferença na percentagem de sinistrómanos, quando comparados os não deficientes e os portadores de S.D., é muito superior no sexo masculino.

- As preferências visual e auditiva apresentaram, no sexo masculino, percentagens inferiores de sinistralidade nos portadores do S.D., contrariamente ao sexo feminino que apresentou percentagens superiores em todas as preferências.

- Em relação à consistência lateral esquerda, os portadores do S.D. apresentaram valores inferiores para as preferências manual e visual.

- Em relação à consistência lateral direita, os portadores do S.D. apresentaram sempre valores inferiores na intensidade da preferência.

- Em relação ao tipo congruente ou cruzado de preferência lateral, os portadores do S.D. evidenciaram valores inferiores de congruência.

REFERÊNCIAS

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VARELA, A. & RODRIGUES, A.(1990) Síndroma de Down - Uma visão antropobiológica (I). Educação Especial e Reabilitação , vol. 1, nº 4, Dezembro, 26-39.

Análise dos efeitos das atividades na água em ambiente fechado e aberto no tonus postural na paralisia cerebral espástica

 

Angela T. Zuchetto Universidade Federal de Santa Cataria

Claudia M. Trevisan Universidade Federal de Santa Maria

 

Introdução

As exercitações no meio líquido podem levar o portador de paralisia cerebral a diminuição do tonus acentuado de forma a liberar o potencial de movimentos funcionais isolados, permite a criança executar na água movimentos ou posturas não habituais que contribuem para a estruturação da imagem global (na posição vertical, por exemplo) ou de segmentos (Moran & Kalakian, 1977). A água como elemento provoca uma pré-disposição ao exercício, não só da musculatura mas de toda a pessoa. A atividade na água produz efeitos fisiológicos que resultam da combinação dos efeitos produzidos pela água da piscina e pelos exercícios e dependem da temperatura da água, duração da atividade, tipo e intensidade dos exercícios. A ação mecânica, térmica e química da água formam fatores que atuam em conjunto sobre o mecanismo do corpo na água, provocados pelos princípios físicos da água, tais como pressão hidrostática, empuxo flutuação e turbulência.

As atividades na água apresentam vantagens que não podem ser vistas no solo, tais como:- aquecimento global de um grande número de articulações simultaneamente, por não ocorrer nenhuma pressão localizada sobre a proeminência óssea, o relaxamento pode ser provido em flutuação, redução do espasmo muscular, a flutuação pode fornecer suporte completo ao corpo resultando em efeitos que não são possíveis em terra, (LINDEMMANN et al 1975; DePAUW,1989; SHERRIL,1986; WINNIE,1994)

A Paralisia Cerebral, tem se tornado uma das principais causa da invalidez nas crianças (SALTER,1985). Caracteriza-se como um grupo de sintomas permanentes de lesões não progressivas resultado a partir de uma lesão nas áreas de controle motor da mente, que pode ter sido originada antes, durante ou depois do nascimento e que se manifesta como uma perda ou uma diminuição do controle sobre a musculatura voluntária. Apesar das lesões não serem progressivas, o quadro clínico se altera com o desenvolvimento do sistema nervoso e o crescimento da criança. ( ZUCHETTO et al 1994; TREVISAN et al 1995; CASH, 1980; DOWNIE, 1987).

Dependendo da localização e nível da lesão no cérebro os sintomas podem variar numa amplitude de severo (total inabilidade para controlar os movimentos corporais) para média (somente um dano leve na linguagem). A lesão no cérebro contribui para o desenvolvimento de reflexos anormais na maioria dos indivíduos, isto resulta em dificuldade de coordenação e integração de movimentos básicos. É raro a lesão estar isolada em uma pequena porção da mente. Pôr esta razão, a pessoa freqüentemente apresenta uma multiplicidade de danos os quais podem incluir retardo mental, problemas de linguagem e fala, doenças repentinas, problemas sensoriais (especialmente aqueles envolvendo controle visual motor), dependendo do grau e localização da lesão no cérebro. A classificação do PC engloba algumas categorias: a classificação topográfica baseada nos segmentos corporais atingidos: monoplégicos (um segmento corporal envolvido); diplégicos (maior envolvimento das extremidades inferior menor envolvimento das partes superiores); hemiplegia (comprometimento de um hemicorpo), triplegia (envolvendo três segmentos corporais, isto é raro); quadriplegia (conhecido como total envolvimento corporal); a classificação neuro-motora compreende os tipos espástico, atetósico, ataxico, tremor, rigidez e misto; e, a classificação funcional estabelece 8 categorias.

A espasticidade ocorre em 70% dos casos de paralisia cerebral (SHERRIL, 1986; SHEPHARD,1990) resulta a partir do dano nas áreas motoras do cérebro e está caracterizado pelo aumento do tonus muscular (hipertonicidade) primariamente nos flexores e rotatores internos o que pode levar a contraturas e deformidades ósseas permanentes. Forças e contrações musculares exageradas são comuns, e em alguns casos os músculos continuarão a contrair-se repetitivamente. Está associada a reflexos de estiramento hiperativo.

O objetivo deste trabalho foi analisar os efeitos das atividades na água em ambiente fechado e aberto no tonus postural na paralisia cerebral espástica

Metodologia

Caracteriza-se como estudo descritivo. Trabalhou-se com uma freqüência de duas vezes por semana com dois grupos, portadores de Paralisia Cerebral do Tipo espástica em dois ambiente, a) uma piscina em ambiente aberto e b) outra em ambiente fechado e aquecido

População e Amostra

a)ambiente aberto: participaram deste 4 sujeitos, de ambos os sexos, que freqüentam o programa de Atividade Motora Adaptada - AMA - cuja faixa etária variou de 5 a 19 anos e, b) ambiente fechado: 6 sujeitos, de ambos os sexos, que freqüentam, uma escola especializada, cuja faixa etária varia de 3 a 10 anos.

Protocolos de avaliação a) avaliação neuroevolutiva; b) avaliação funcional e c) teste de Held.

Teste de Held Este teste avalia a espasticidade através do reflexo de estiramento. Apresenta cinco níveis de 0 à 4 os testes foram realizados a cada dia precedendo as atividades e posteriormente em 3 tempos com intervalos de 10 minutos. Para observar, caso acontecesse, o tempo de permanência da redução do tonus muscular

Quadro 1 - Quanto a avaliação neuro-evolutiva evolutiva. (Bobath, 1978)

Sujeito nº 1- Em decúbito dorsal, somente rola. Não passa para a posição sentado, não se mantém nas outra posturas; se colocado em pé, se mantém com o apoio de barras e desloca-se; n a cadeira necessita fixação e somente no plano em solo adequado propulsiona a cadeira;

- Teste de Held 3; Não deambula;

Sujeito nº 2- Decúbito dorsal permanece como esta;- Tonus muscular aumentado com espasticidade severa; - Membros superiores e inferiores com limitação, amplitude articular , membros superiores e inferiores em tesoura;- Teste de Held 2;

Sujeito nº 3;- Deambulação livre, a frente;- Decúbito dorsal, dificuldade para passar a 4 apoios;

Maior facilidade para correr do que para andar;- Teste de Held 2;

Sujeito nº 4; Deambulação com apoio, bengala;- Da posição prona tem dificuldades para ir a posição supina, permanece poucos minutos na posição de gato, e não muda a posição sentada;- Teste de Held 3

Sujeito nº5; de decúbito dorsal passa até sentado, permanecendo na postura com apoio de MsSs. Em pé mantém somente com apoio, marcha em tesoura, MsSs e Is com limitação na amplitude de movimento (ADM), e força muscular. Held 2 e 3

Sujeito nº6; deambula com apoio, em decubito dorsal dificuladade para passar a quatro apoios Held 2 e 3

Sujeito nº 7;deambula livre com dificuldade para correr, saltar e pular, com prejuizo no equilibrio apartir da posição ajoelhada. Held 1

Sujeito nº8;em DD somente rola, não passa para a posição sentada e não se mantem em outras posturas, permanece em pé com apoio, e na cadeira necessita de fixação no tronco MsSs e Is com limitação na ADM, e força muscular. Held 2

Sujeito nº9; adota todas as posturas até a posição ajoelhada, sem apoio, em pé marcha em tesoura, deambula somente com apoio, MsSs e Is com limitação na ADM, e força muscular. Held 2

Sujeito 10;em DD passa até sentado, permanecendo na postura com apoio de MSMS, em pé somente com apoio e marcha em tesoura Held 2

Quadro 2 - Quanto a classificação funcional

DESCRIÇÃO

DEAMBULAÇÃO

Sujeito 1- 19 anos, sexo masculino, quadriplegia severa para moderada espástica, força pobre em todas as extremidades, pobre controle de tronco (usa cinto para fixa-lo), arremessa bola ao cesto de basquete a pequenas distancias. Classe II

- Na cadeira de rodas, necessita de que o desloquem

Sujeito 2 - 05 anos, sexo masculino, severa espasticidade em todas as extremidades, controle de tronco inexistente pobre amplitude funcional de movimento e força. Classe I

- Colo da mãe

- Carrinho de bebê

Sujeito 3 - 12 anos, sexo feminino, diplegia com moderada espasticidade, força muscular pobre para normal, mínimos problemas de membros superiores, do tronco e ambas extremidades, na corrida demonstra mais habilidade do que na caminhada. Classe IV

- Sem auxilio

Sujeito 4 - 14 anos, sexo feminino, moderada quadriparesia moderada para severa, pobre força de membros superiores mais esquerdos, limite de extensão, pegada normal para objetos grandes lentidão na execução.

- Com auxilio, uso de bengala e consegue andar 3 passos sozinha.

Sujeito 5 - 10 anos, sexo masculino, quariparesia grave E, força pobre em todas as extremidades, pobre amplitude de movimento e controle do tronco. Classe I

- Não deambula

Sujeito 6 - 8 anos, feminino, quadriparesia moderada D, controle de tronco bom, força e amplitude funcional razoável. Classe I

Somente com auxilio

Sujeito 7 - 3 anos, feminino, hemiparesia leve E, amplitude e força razoável no hemicorpo E, boa habilidade funcional no hemicorpo não afetado. Classe VII

-Sem auxilio

Sujeito 8 - 7 anos, masculino, quadriparesia grave D, severa espasticidade em todas as extremidades, controle de tronco , amplitude de movimentos e força muscular pobre. Classe I

-Não deambula

Sujeito 9 - 6 anos diparesia espástica moderada, com moderado envolvimento em ambas as pernas, boa força muscular, mínimo problema de controle de MsSs, Classe I

Necessita de auxilio

Sujeito 10 - 6 anos, masculino, quadriparesia moderada D, severa espasticidade em todas as extremidades, controle de tronco, amplitude de movimento e força pobre. Classe I

Não deambula

Metodologia empregada no meio liquido.

O presente trabalho utiliza, na água, o método Bobath. Este preconiza técnicas de facilitação/inibição e facilitação das reações de retificação postural pelo manuseio e pegadas em "pontos-chaves" de membros superiores (MMSS) e membros inferiores (MMII). Objetiva, primeiramente inibir padrões anormais e estereotipados e desenvolver outros que possam servir de base a movimentos complexos, harmoniosos e seletivos. A inibição é o fator determinante na facilitação dos movimentos, redução da hipertonia, hipercinesia, com o desenvolvimento do mecanismo cortical com perfeito controle dos movimentos de grupos musculares. No manuseio deve ser desfeitos os padrões anormais para que o sujeito possa realizar movimentos normais, só assim ele terá padrões normais sensórios-motores.

Para a execução das técnicas foram utilizados 3 posições: 1) Sujeito em decúbito dorsal (DD), com a cabeça apoiada no ombro do terapeuta e fixado em "pontos-chaves"ou articulações adequadas; 2) Sujeito sentado no degrau da escada, de modo que seu tronco fique submerso. E apoiado nas costas pelo primeiro terapeuta, que está sentado em um degrau acima e o segundo terapeuta está à frente do sujeito fixando os seus pés; 3) Sujeito em pé, segurando com as duas mão na barra horizontal.

Considerando-se que durante as atividades na água

1-) A forma e a densidade do corpo são fatores críticos na resposta da imersão na água. Todos os seres humanos são assimétricos em uma maior ou menor proporção, e ocorrera um problema de estabilidade na água. Alguns flutuarão quando a soma das densidades relativas dos ossos, tecidos, músculos e órgãos for menor do que o peso da água. E preciso entender a existência de tempo mais fáceis para a flutuação. As pessoas com paralisia cerebral que possuírem uma inabilidade ou deficiência terão uma alteração importante na forma e ou densidade corporal.

2-) Existem dois tipos de rotação na água: uma vertical e outra lateral. A criança, para conseguir a total segurança, necessita desenvolver controle dos seus planos de rotação. O efeito rotacional e feito mediante o controle da cabeça e dos membros, fazendo com que haja uma mudança na forma do corpo, e o controle respiratório e um pre-requisito para ser praticado em todas estas atividades. A rotação vertical e um giro sobre o próprio centro de flutuação do corpo imerso, ou seja, e uma cambalhota tanto para frente como para trás. Este tipo de rotação e mais difícil de se conseguir do que a rotação lateral ou horizontal, em que o corpo gira em torno de si mesmo. O terapeuta poderá auxiliar nestas rotações no começo, mas, a partir do momento em que a criança aprender, deve ser estipulada a realiza-la independentemente.

3-)Podemos incluir na atividade duas fases. Primeira e a fase de adaptação, na qual se introduz a criança ao meio aquático, provendo uma interação com o novo meio. E uma fase critica e visa adquirir confiança através da entrada e saída da piscina, conhecimento do ambiente pela criança (profundidade e tamanho da piscina) e segurança que o professor transmite. O tempo desta fase varia e pode durar algumas sessões ou ate meses. A segunda fase pode ser considerada como uma fase terapêutica, na qual são introduzidos os exercícios com a flutuação e a usada turbulência e propulsão. Pode-se trabalhar no sentido de inibir os reflexos patológica, caso presentes. Consideramos importante frisar que a individualidade de cada criança deve ser analisada como um global, e a natureza de sua deficiência entendida para se tratar a melhor conduta.

Apresentação e discussão dos resultados

Em ambiente aberto o Teste de Held: nos primeiros meses não aconteceram modificações no tonus muscular,. Após 10 meses alguns testes apresentaram modificações quando a temperatura da água estava acima de 27 graus. Os sujeitos 1 e 3 apresentaram e mantiveram redução de um ponto no teste, o qual permaneceu por 10 minutos no sujeito 1 e por aproximadamente 20 minutos no sujeito 3. Quando a temperatura da água era mais alta, observava-se maior relaxamento nos sujeitos, o maior problema foi a dificuldade em controlar a temperatura da água que oscilava muito e muitas vezes ocorria aumento do tonus, contrário ao que se esperava neste estudo principalmente no sujeito 2. Em ambiente fechado não ocorreram mudanças no teste de Held, provavelmente devido ao comprometimento sujeitos. Em ambos os ambientes, na água encontrou-se facilidade na execução da tarefa de inibições dos reflexos posturais, facilidade esta provocada pela diminuição de algumas forças ambientais que interferem no movimento dos paralisados cerebrais, como a força de empuxo, facilitando a realização do movimentos. Um aspecto importante a salientar é que o desempenho nas tarefas de adaptação ao meio líquido foi satisfatória na totalidade dos sujeitos, todos esperavam ansiosos a sua hora de atividade e respondiam com rapidez a todas as tarefas solicitadas. Os deslizamentos e alongamentos foram realizados com facilidade, o uso de equipamentos de apoio e flutuadores facilitou esta tarefa uma vez que auxiliou na manutenção das posturas escolhidas. A deambulação na água foi recebida com satisfação, a capacidade de um ato motor que fora da água é difícil, trouxe enorme satisfação para as crianças. O auxilio, de flutuadores e duas pessoas para a atividade foi fundamental. A maior dificuldade encontrada foi na mudança de decúbitos ventral para dorsal Após as atividades na água, as crianças apresentaram-se tranqüilas e melhoraram o sono.

Conclusões

As mudanças de tonus postural nas crianças que participaram deste estudo ocorreram com eficácia nos dias em que a temperatura da água estava acima de 27 graus. Para a redução do tonus faz-se necessário, a utilização de temperaturas mais elevadas, entre 30 e 33 graus, Em ambiente fechado as respostas foram melhores em termos de relaxamento e ganhos de amplitude de movimentos . Em ambos os ambientes aconteceram melhoras no desempenho das atividades

Referencias Bibliográficas

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BOBATH, K. - Uma base neurofisiológica para o tratamento da paralisia cerebral. Ed. Manoel, São Paulo, 1984;

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BURKHARDT, R.; ESCOBER. M. º Natação para portadores de deficiencia. Rio de Janeiro, RJ. Editora ao Livro Tecnico S.., 1986.

DePAUW, K.P. Sport for individuals wich disabilities.Adapted Physical Activity Quarterly, v 5, p 119-24, 1988

DUNN, J.M. Methodological considerations in program develont. In: DOLL-TEPPER, G.;DAHMS, C.; DOOL, B.; SELZAM, H.V., eds. Adapted phisical activity: an interdisciplinary approach. Berlin, Springer-Verlag 1990.p210

LEITÃO, A - Paralisia cerebral, diagnósrico, terapia e reabilitação. Ed. Atheneu. Rio de Janeiro, 1983.

LINDERMANN, K.; TEIRICH-LEUBE, H.; HEIPERTZ. W.. Tratado de esquelético. 2ª edição, Rio de Janeiro, RJ, Editora Medica e Cientifica Ltda. 1985.

SHERRIL, Claudine. Adapted Phisical Education and Recreation. Texas:WCB, 1986.

TREVISAN, Claudia Moraes et al. A importancia da detecção de patologias de desenvolvimento nos casos de anóxia neonatal e entervenções fisioterapêutica. Arquivos de Neuro-psiquiatria, V.52,p. 592-595. São Paulo: 1994. WINNICK, Joseph P. T. Adapted Phisical Education and Sport.U.S.ª: Human Kinetics, 1990.

Qualidade de vida de portadores de deficiência em função do tipo

IVALDO BRANDÃO VIEIRA

UNIVERSIDADE CASTELO BRANCO

ESTÉLIO H. M. DANTAS

UNIVERSIDADE CASTELO BRANCO

Rio de Janeiro- Brasil

1- INTRODUÇÃO

As Primeira e a segunda Guerras mundiais produziram centenas de milhares de mutilados, quase todos eles com uma perspectiva de sobrevida reduzida, devido a falta de uma medicina especializada. No citado grupo, após 7 à 9 meses o óbito era inevitável.

Perambulando em suas cadeiras de rodas, sem ter como preencher seu tempo e impedidos de retornarem a uma vida social "normal" por serem considerados um fardo muito pesado, grupos de paraplégicos, das diversas enfermarias se reuniam, para informalmente desafiar uns aos outros com a realização de tarefas que envolvessem a movimentação com as cadeiras de rodas nas mais diversificas formas.

Sob esse enfoque observa-se , não só uma busca de uma forma de assumir sua deficiência, como uma possibilidade de experimentar outros meios, para minimizar os efeitos da citada deficiência e desenvolver e expressar, de forma concreta, suas potencialidades através do movimento corporal.

O ser humano é um conjunto complexo de vida, de percepção e de movimento. Segundo FEIJÓ(1992), "o movimento é um dos traços mais característicos da vida".

Observando ações motoras de pessoas portadores de deficiência, FONSECA(1981), cita que "o movimento deve ser analisado, da forma como foi vivido e não segundo conceitos exteriores à sua realização, que não respeitam a adaptação singular de cada individualidade".

Compreender o movimento dentro de um contexto de todas as dimensões humanas, é conceber que antecedendo ao fenômeno físico existe uma intencionalidade. Para FEIJÓ(1992), "um fator imensamente sofisticador do movimento é a dimensão da consciência – isto é, o nível de auto-percepção, de intenção, de funcionalidade e de eficácia que ocorre no movimento".

Ao se aprofundar no significado da motricidade humana, o homem precisa saber que tem corpo, que ele é seu corpo e através dele expressa pensamentos, emoções e percepções de movimentos.

Diferentes estudos tem citado as excelências das práticas de atividades físicas e desportivas para as

PPD. Corroborando com estas afirmações podemos citar os trabalhos de ADAM, (1978); COSTA,(1990);

CONDE,(1991); GARCIA,(1990); MATTOS, (1990); SOUZA, (1991); VIEIRA, (1994) .

Dos grandes benefícios observados pelos autores, dois se avultam pela importância: as vantagens

fisiológicas, inegáveis pela prática sistemática, e o caráter de integração e sociabilização que as atividades

físicas ou desportivas proporcionam. DANTAS (1997), evidencia que uma prática regular de atividades

físicas, poderá ser um indicador de melhoria da qualidade de vida, desde que outros fatores importantes

como subsistência e de segurança sejam assegurados.

Estudiosos como CAJIGAL, (1982); TUBINO, (1991) dentre outros, consideram o esporte o

fenômeno cultural mais importante do presente século. Segundo RADFORD; KIRBY, (1975), citado por

SANTOS & PEREIRA, através dos tempos, o homem encontrou no esporte uma forma de auto-expressão

vigorosa e capaz de produzir significativas mudanças no estado emocional.

Portanto, existem substanciais evidências segundo os autores citado, que as prática de atividade física ou a desportiva, produzem efeitos benéficos, propiciando assim, uma redução da ansiedade estado, diminuição dos sintomas de depressão melhoria de auto-conceito, auto-confiança promovendo um bem estar em seus praticantes.

2 - JUSTIFICATIVAS

O exercício físico e em qual o esporte em particular, reportam um importante benefício psíquico e físico ao ser humano, DANTAS, (1994). Nas PPD, da mesma forma, a atividade física e o desporto adaptado asseguram essas alterações positivas, conforme afirmam DA ROCHA & MOISÉS, (1990), sendo estes, elementos indiscutivelmente favorecedores da integração social

Assim, outro parâmetro que deve ser avaliado de forma objetiva é o princípio da integração citado por FERNANDES,(1995), "como uma seqüência de fatos conexos entre si que delimita esforços de diferentes seguimentos da sociedade, no intuito de propiciar condições que possibilitem aos considerados diferentes se integrarem à sociedade".(p. 12)

Por isso, se faz necessário aprofundar-se nos hábitos de vida dos indivíduos portadores de deficiência, praticantes de esporte, praticante de atividade física ou sedentários, observando-os nas relações que estabelecem com a sociedade.

OBJETIVO

O objetivo deste estudo foi verificar de que forma o tipo de prática de atividade física influência na qualidade de vida de pessoa portadora de deficiência(PPD).Tal estudo foi realizado por meio de comparação de indicadores de qualidade de vida, entre grupos homogêneos, praticantes de esportes, atividade física não desportiva e sedentários.

PROBLEMA

  •  
    • Existem indicadores de qualidade de vida diferenciados entre as pessoas portadoras de deficiência desportistas, praticantes de atividades físicas e sedentários, em função do tipo da prática de atividades física?

3 - MATERIAL E MÉTODO

O estudo foi realizado segundo um modelo de pesquisa descritiva do tipo EX POST FACTO, empregando-se a técnica de análise de conteúdo, através de ferramentas da estatística inferêncial ANOVA ONE WAY, combinada com teste de TUKEY para verificação de existência de diferenças significativas entre as médias das variáveis.

O universo dos sujeitos selecionados foram 38 PPD atletas, 25, PPD não atletas praticantes de atividade física regulares, 27 PPD não praticante de atividade física-sedentário, masculino e feminino, inscritos nos clubes ou associações filiados ao Sistema Desportivo Nacional para Pessoas Portadoras de Deficiência no ano de 1997.

Os Instrumentos empregados foram os questionários SF-36 PESQUISA EM SAÚDE, o questionário de AUTO-AVALIAÇÃO IDATE I e II, utilizados para descrever sentimentos pessoais e o questionário de INVENTÄRIO BECK, para descrever os níveis de ansiedade e depressão na amostra selecionada.

 

3.1-QUESTÕES A SER INVESTIGADAS

  • - Qual o nível de estresse, ansiedade e auto-percepção de saúde que apresentam os adultos portadores de deficiência que praticam esportes?
  • - Qual o nível de estresse, ansiedade e auto-percepção de saúde que apresentam os adultos portadores de deficiência não desportistas, praticantes de atividade física regular?
  • - Qual o nível de estresse, ansiedade e auto-percepção de saúde que apresentam os adultos portadores de deficiência não praticantes de atividades física sedentários?
  • - Qual a relação, por ventura existentes entre os grupos?

 

 

4-APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

 

O presente Estudo, observou as considerações básicas no Tratamento Estatístico, para a manutenção da cientificidade da Pesquisa. O nível de significância considerado foi de p < 0,05., isto é , 95% de certeza para afirmativas e/ou negativas que o presente estudo venha denotar.

O Universo Amostral foi composto por 90 pessoas, portadoras de deficiência, que ao responderam aos questionários propostos, possibilitou que se obtivessem uma amostra distribuída conforme ilustra a tabela abaixo:

 

TABELA I

COMPOSIÇÃO DO UNIVERSO AMOSTRAL

GRUPOS

DESCRIÇÃO

N

FREQ.

1

Atletas

38

42,2%

2

Praticantes de Atividade Física

25

27,8%

3

Sedentários

27

30,0%

Total

Amostra

90

100%

 

 

Dos 90 portadores de deficiência 14% não declararam sua naturalidade (n=13), o restante da população estudada foi distribuída segundo a tabela abaixo:

 

TABELA II

Naturalidade:

N

Freq.

Não Declarou

13

14,4%

Bahia

1

1,1%

Espírito Santo

4

4,4%

Goiás

8

8,9%

Minas Gerais

18

20,0%

Mato Grosso do Sul

11

12,2%

Mato Grosso

1

1,1%

Paraíba

1

1,1%

Pernambuco

3

3,3%

Paraná

9

10,0%

Rio de Janeiro

15

16,7%

Rio Grande Do Sul

1

1,1%

Santa Catarina

1

1,1%

São Paulo

4

4,4%

Total

90

100%

Um dado importante que foi coletado a partir do questionário de identificação da amostra, refere-se ao grau de instrução.

As respostas a este questionário permitiu-se constatar uma prevalência de 33% de pessoas com o segundo grau completo distribuídos entre os três grupos de forma equilibrada.(Tabela III)

TABELA III

GRAU DE INSTRUÇÃO DO GRUPO AMOSTRAL

Gr.Inst /Grupo

1

2

3

Total

Analfabeto

0

0,0%

0

0,0%

1

1,1%

1

1,1%

1 G Incompleto

13

14,4%

4

4,4%

2

2,2%

19

21,1%

1 G Completo

6

6,7%

8

8,9%

4

4,4%

18

20,0%

2 G Incompleto

5

5,6%

1

1,1%

1

1,1%

7

7,8%

2 G Completo

9

10,0%

9

10,0%

12

13,3%

30

33,3%

3 G Incompleto

2

2,2%

1

1,1%

0

0,0%

3

3,3%

3 G Completo

3

3,3%

2

2,2%

7

7,8%

12

13,3%

Total

38

42,2%

25

27,8%

27

30,0%

90

100,0%

Analisando a composição e distribuição de renda entre os grupos estudados, 33,3% com (n=30) da amostra concentrou-se no tipo de renda acima de 6 salários

FIGURA 1

VARIAÇÃO DAS RENDAS NOS GRUPOS

Quanto ao tipo de deficiência apresentada, houve uma incidência maior de seqüela da poliomielite 26,7% ou seja (n=24), do total, seguido de seqüela da paralisia cerebral com (n=16) casos dando um percentual de 17,8%. Na deficiência física, juntando os casos de paraplegia e tetraplegia incidiu em 23,4%.

Outras patologias como amputação, distrofia muscular progressiva, derrame(acidente vascular cerebral), deficiência múltiplas, ou seja, combinada com outras deficiência, incidiram em percentuais abaixo de 8%.

 

TABELA IV

VARIAÇÃO DOS GRUPOS DE DEFICIÊNCIANO GRUPO ESTUDADO

Def./Grupo

1

2

3

Total

 NFreq.NFreq.nFreq.n

Freq.

Amputado

4

4,4%

3

3,3%

0

0,0%

7

7,8%

(AVC).Derrame

0

0,0%

1

1,1%

1

1,1%

2

2,2%

Dist. Muscular

1

1,1%

3

3,3%

2

2,2%

6

6,7%

Paralisia Cerebral

12

13,3%

0

0,0%

4

4,4%

16

17,8%

Física

0

0,0%

2

2,2%

2

2,2%

4

4,4%

Paraplégica

6

6,7%

4

4,4%

5

5,6%

15

16,7%

Pólio

13

14,4%

3

3,3%

8

8,9%

24

26,7%

Tetraplegia

1

1,1%

3

3,3%

2

2,2%

6

6,7%

Deficiência Múltipla

0

0,0%

1

1,1%

0

0,0%

1

1,1%

Outros

1

1,1%

5

5,6%

3

3,3%

9

10,0%

TODOS

38

42,2%

25

27,8%

27

30,0%

90

100,0%

 

 

 

 

Nas respostas sobre a opção esportiva houve uma preferência pelo basquetebol 35,7% (n=20), seguido pela natação 23,2% (n=13), atletismo com 19,6% (n=11) e futebol para portadores de paralisia cerebral com 17,9% (n=10).(Tabela VI)

 

TABELA VI

ESPORTE PRATICADO

N

Freq.

Atletismo

11

19,6%

Basquete

20

35,7%

Futebol

10

17,9%

Natação

13

23,2%

Outros

2

3,6%

Total

56

100%

 

 

 

Nos tipos atividades físicas relacionadas com seu cotidiano, fica claro que um grande número necessitam dos serviços de fisioterapia e terapia ocupacional 43,6% .

 

 

 

TABELA VII

TIPO DE ATIVIDADE FÍSICA PRATICADA

N

Freq.

Ginástica de Academia

2

5,1%

Caminhada

5

12,8%

Basquete recreação

7

17,9%

Dança

1

2,6%

Musculação

2

5,1%

Fisioterapia

13

33,3%

Terapia Ocupacional

4

10,3%

Outros

5

12,8%

Total

39

100%

Essas práticas também receberam uma freqüência compatível com a sua necessidade de 2 ou 3 vezes semanais 71,8%, do grupo praticante de atividade física.

4.1-DISCUSSÃO DOS RESULTADO

O ponto principal desta sessão destinada à apresentação e discussão dos resultados, consiste na análise dos dados que forneceram subsídios para o teste das hipóteses apresentadas.

4.1.2 - QUESTÕES INVESTIGADAS

4.1.2.1- Qual o nível de estresse, ansiedade e auto- percepção de saúde que apresentam os adultos portadores de deficiência que praticam esportes?

O nível de estresse e ansiedade e auto-percepção de saúde, observados nos respectivos Grupos, foram:

TABELA VIII

MÉDIAS ENCONTRADAS PARA OS DESPORTISTAS

GRUPO 1

INSTRUMENTO UTILIZADO

Média

D.P.

Inventário de Traço-grau de ansiedade

35,2

11,7

Inventário de Estado-grau de ansiedade

38,3

10,8

Inventário Beck

16,1

7,2

SF-36-Capacidade funcional

77.1

21.4

SF-36- Aspectos Físicos

34,9

20,8

SF-36- Dor

68,4

26,3

SF-36- Estado Geral de Saúde- EGS

69,1

23

SF-36- Vitalidade

47,4

15,9

SF-36- Aspectos Emocionais- AE

82,9

18,5

SF-36- Aspectos Sociais- AS

85,1

14,5

SF-36- Saúde Mental

39,7

22

4.1.2.2.-Qual o nível de estresse, ansiedade e auto percepção de saúde que apresentam os adultos portadores de deficiência não desportistas praticantes de atividade física regular.

O nível de estresse, ansiedade e auto percepção de saúde, observado neste grupo foram:

TABELA IX

MÉDIAS ENCONTRADAS PARA OS NÃO DESPORTISTAS

PRATICANTES DE ATIVIDADE FÍSICA REGULAR

GRUPO 2

INSTRUMENTO UTILIZADO

Média

D.P.

Inventário de Traço-grau de ansiedade

39,6

12,2

Inventário de Estado-grau de ansiedade

36

10,4

Inventário Beck

15,8

5,6

SF-36- Capacidade funcional

48,5

34,3

SF-36- Aspectos Físicos

33,7

18,3

SF-36- Dor

70,6

30,2

SF-36- Estado Geral de Saúde- EGS

69,8

25,7

SF-36- Vitalidade

48,1

22,6

SF-36- Aspectos Emocionais- AE

83,7

31,6

SF-36- Aspectos Sociais- AS

78,6

28,4

SF-36- Saúde Mental

45,4

21,8

4.1.2.3- Qual o nível de estresse, ansiedade e auto-percepção de saúde que apresentam os adultos portadores de deficiência não praticantes de atividades física, sedentários?

O nível de estresse, ansiedade e auto-percepção de saúde observados neste Grupo foram:

TABELA X

MÉDIAS ENCONTRADAS PARA OS NÃO DESPORTISTAS

NÃO PRATICANTES DE ATIVIDADE FÍSICA-SEDENTÁRIO

GRUPO 3

INSTRUMENTO UTILIZADO

Média

D.P.

Inventário de Traço-grau de ansiedade

34,9

14,7

Inventário de Estado-grau de ansiedade

33,8

15,4

Inventário Beck

15,3

6,1

SF-36- Capacidade funcional

57,1

27,2

SF-36- Aspectos Físicos

38,5

17,6

SF-36- Dor

70,4

32,1

SF-36- Estado Geral de Saúde- EGS

75,6

24,8

SF-36- Vitalidade

55,4

18,6

SF-36- Aspectos Emocionais- AE

82,3

26

SF-36- Aspectos Sociais- AS

81,4

27,3

SF-36- Saúde Mental

49,2

23,9

 

4.1.2.4-Qual a relação, por ventura existente entre os grupos?

Com o objetivo de congregarmos os resultados obtidos em um só dado, caracterizando em síntese o nível da Qualidade de vida dos elementos do Universo Amostral, calculou-se os Scores individuais , observando as inversões pertinentes aos valores observados nos Testes de nível de estresse e de Beck.

Score calculado = [(Valor indivíduo - Menor Valor)/ (Maior valor - Menor valor)] x 100.

Para o questionário SF-36, não foi preciso a inversão [ 100 - Score calculado ], uma vez que sua escala é crescente no sentido positivo, isto é , quanto maior o Score maior será o nível de auto percepção de saúde.

O valor médio dos Scores calculados, correspondem ao nível da Qualidade de vida do indivíduo. Os valores médios dos respectivos grupos são:

 

 

TABELA XI

SCORE MÉDIO DOS GRUPOS

QUALIDADE DE VIDA

N

MÉDIA

D.P.

1

38

51,6

11,7

2

25

51,8

13,9

3

27

55,8

14,3

 

 

 

4.2- TESTE DAS HIPÓTESES

A fim de realizarmos os Testes de Hipóteses formuladas na Pesquisa, utilizamos as ferramentas da Estatística de Inferência, Análise de Variância - ANOVA one way, segundo o nível de significância p < 0,05. Os resultados seguem conforme a Tabela abaixo:

 

TABELA XII

RESULTADO DA ANÁLISE DE VARIÂNCIA

grau de liberdade =87

Variável

F calculado

Nível Sig. P

Resultado

Tukey

Parte 1 – Traço

1,176

0,3132

Iguais

-

Parte 2 - Estado

1,058

0,3516

Iguais

-

Beck

0,119

0,8882

Iguais

-

SF-36    
CAPACIDADE FUNCIONAL

9,311

0,0002 ***

Diferentes

Gr 1 > (2 e 3)

ASPECTOS FÍSICOS

0,439

0,6459

Iguais

-

DOR

0,055

0,9464

Iguais

-

ESTADO GERAL DE SAÚDE

0,567

0,5694

Iguais

-

VITALIDADE

1,493

0,2305

Iguais

-

ASPECTOS EMOCIOANIS

0,019

0,9815

Iguais

-

ASPECTOS SOCIAIS

0,636

0,5319

Iguais

-

SAUDE MENTAL

1,367

0,2605

Iguais

-

QUALIDADE DE VIDA

0,846

0,4326

Iguais

-

Sendo confirmada no teste a Hipótese Nula Ho onde, não existem diferenças significativas para ( p< 0,05 ) na Qualidade de vida [ p(0,4326) > 0,05 ] em pessoas portadoras de deficiência atleta, em comparação com praticantes de atividades físicas e sedentários.

 

6-CONCLUSÕES

1-Predominância do sexo masculino na busca de uma prática de atividade, seja ela física ou desportiva, reforça uma questão cultural;

2- Os níveis de estado de ansiedade e de stress encontrado nos PPD, atletas e nos PPD praticantes de atividade física, são fenômenos inerentes a essa práticas, que quando bem equacionados possibilitam saúde e bem estar, conduzindo dessa forma equilíbrio e harmonia ao praticante;

3-Problemas de ordem social e econômica nas diversas regiões do Brasil, contribuem para o aparecimento, ainda muito grande de patologias em processo de erradicação;

4-A prática de atividades físicas evidencia uma tendência os trabalhos que favoreçam a reabilitação principalmente aqueles que possam promover a obtenção de resultados positivos, no que se refere ao pleno exercício de sua cidadania;

5-Apesar do estudo indicar para o grupo pesquisado, que o tipo de prática de atividade física ou desportiva, não contribui para a melhoria de sua qualidade de vida, ficou evidenciado que necessitamos de instrumentos mais sensíveis, para que possamos analisar Qualidade de Vida para portadores de deficiência em função do tipo de suas práticas e de suas necessidades especiais.

 

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Percepção corporal de pacientes cronificados em hospital psiquiátrico

 

Profa. Dra. Silvana Venâncio

Profa. Dra. Maria da Consolação G. C. F.Tavares

FEF/Unicamp

Tendo sido convidada a integrar um grupo que orienta pacientes cronificados do Hospital Psiquiátrico Cândido Ferreira, deparei-me com o fenômeno chamado loucura e, com ele, a questão: "O que um profissional de Educação Física poderia fazer diante disso"? Para responder a tal questão foi preciso retomar o papel que um profissional dessa área ocupa na sociedade.

Em seu trabalho, os profissionais ligados à Educação Física utilizam as atividades corporais como principal conteúdo de suas propostas. O conhecimento para utilizar esse recurso é o que nos destaca dos profissionais de outras áreas da atividade humana. A concepção que orientou o presente trabalho de pesquisa tem sua fundamentação nas atividades desenvolvidas por este pesquisador que, como profissional de Educação Física, tem seu olhar dirigido à educação corporal, ou seja, à promoção do corpo como espaço e movimento, como expressão e linguagem.

E é na perspectiva de uma Educação Física que eduque corporalmente, que acredito poder ser criado um espaço favorável aos pacientes cronificados, no qual possam desenvolver e manifestar a percepção de seu próprio corpo.

O corpo não pode ser considerado como um simples instrumento de realizações. Quase sempre que se faz uma atividade, menosprezam-se os meios utilizados na ação, em função do objeto a atingir: fazemos algo com o corpo para atingir um objeto fora do corpo.

A atividade corporal representa um elo importante com a vida, desde que a presença do corpo seja sentida e conscientizada. Ao se fazer as pessoas viverem conscientemente as ações corporais particularmente em situações lúdicas, com o prazer que isso confere positivamente se estará reforçando os elos que ligam à vida.

Querendo fugir do caráter funcionalista que assumem, quase sempre, as práticas de Educação Física, é que me propus a ir mais longe no sentido de ver como se mostra esse ser cuja doença e institucionalização rompem seus elos com a sociedade.

A história da loucura é permeada de atitudes segregativas e de jogos de exclusão. Há muitos séculos, de formas diferentes, o louco era isolado da sociedade e da família. Para qualquer desvio de conduta que ameaçava a estrutura famíliar ou social, tinha-se como conduta o isolamento do louco. A internação tinha um caráter de punição.

A loucura assumia assim, um modelo de animalidade; trancafiados, os loucos não eram homens que perderam a razão, mas animais dotados de uma ferocidade natural que precisavam ser fisicamente coagidos. Despojado o homem da sua humanidade, ele não precisava ser curado. Para ser dominada, a loucura deveria ser domesticada, pois sua natureza difere da natureza humana.

A institucionalização rompe toda a ligação do paciente com a vida cotidiana. A ausência de um projeto pessoal, o ritmo, a organização da instituição, o espaço circunscrito a poucos metros quadrados, faz com que ele perca sua identidade, sua corporalidade, se torne imóvel, adormecido. Assim, o corpo perde o direito de usufruir de si próprio.

Fatos como estes, bem como a aproximação com os pacientes do Hospital Psiquiátrico Cândido Ferreira, impulsionaram-me a acrescentar ao compromisso inicial de trabalho que era desenvolver um programa de atividades físicas uma proposta de compreendê-los na sua corporeidade.

Assim nasceu a questão basal, o fio condutor que deu origem a este estudo: "Qual a percepção que pacientes psiquiátricos cronificados têm de seu corpo?"

A opção pelo caminho da compreensão de pacientes cronificados, teve o intuito de percebê-los do ponto de vista da intenção que os anima. A proposta de estudar o fenômeno na sua dimensão subjetiva, ou seja, naquilo que o distingue como essencialmente humano, é bem diferente de apenas separar hermeticamente os pacientes cronificados, identificando-os como irrecuperáveis.

A elaboração deste estudo não foi feita aleatoriamente. Durante três anos anteriores, dentro do convênio Unicamp - Cândido Ferreira, trabalhei com uma equipe do referido Hospital, com a prática da Educação Física. Baseada nessa experiência anterior, surgiu o interesse pela atual pesquisa e a execução de um programa de atividade física. Participaram do trabalho inicialmente mais de 25 mulheres, porém, apenas 8 foram até o final. A faixa etária situava-se aproximadamente de 30 a 60 anos, embora fosse difícil precisar as idades, pois as pacientes normalmente vinham transferidas de outras instituições psiquiátricas com pouquíssimas informações , às vezes sem nenhum dado sobre a própria história.

A princípio, o trabalho foi realizado em locais improvisados no próprio hospital, já que os lugares possíveis e adequados estavam ocupados por outras atividades. Após algumas reuniões com a equipe técnica, obtive a autorização para transportar os pacientes para as dependências da Faculdade de Educação Física da Unicamp, onde as atividades passaram a se realizar em melhores condições.

A proposta foi estabelecer encontros semanais de duas horas por um período de um ano e meio.

Pelas características dos sujeitos da pesquisa, foi preciso acrescentar à idéia inicial de apenas coletar depoimentos verbais através do gravador, um novo recurso: a filmagem, cuja tentativa era obter material mais completo de análise. Esta opção foi feita devido à dificuldade das pacientes/alunas de elaborar um discurso contínuo. As falas eram, muitas vezes, completadas com gestos e atitudes, com expressões corporais muito ricas de significado.

Ao fazer uma leitura dos dados, observei que a linguagem sobre o "concreto", a linguagem sobre o "abstrato", sáude, tocar, dançar, música, relaxamento, aula, brincar, olhar , exercícios respiratórios, foram variações imaginativas que emergiram a partir dos discursos dos sujeitos. Ir aos discursos dos sujeitos, recorrer a uma metodologia permitiu-me ter a possibilidade de discernir, de transcender alguns significados, na maioria das vezes implícitos na palavra do próprio sujeito pesquisado. Implícito, mas não necessariamente secundário, pois é, talvez, no implícito, no sentido figurado e indireto, que o desejo titila com mais força tentando revelar-se.

A modalidade da pesquisa ANÁLISE DA ESTRUTURA DO FÊNOMENO SITUADO, foi adotada como instrumento de investigação neste estudo, e tem a Fenomenologia como suporte. Portanto, vou lidar com o conceito da Fenomenologia que se aplicam à Pesquisa do Fenômeno Situado, para tanto, recorremos a três momentos de análise, são eles: a descrição, a redução, a compreenção.

Procurei mover-me de forma lenta e cuidadosa a cada etapa da metodologia, ficando bem próxima do discurso dos sujeitos até a análise ideográfica. Em seguida, fazendo exercício de ir às coisas mesmas e voltar à sua compreensão, elaborei variações imaginativas a partir do fenômeno Percepção Corporal de pacientes cronificados em hospital psiquiátrico.

Com a construção do Quadro de Análise Nomotética , surgiu para mim um pano de fundo que mostrou perspectivas do fenômeno, que passo a relatar:

Ao fazermos a redução fenomenológica dos discursos, chegamos próximo do "si" de cada sujeito. O sentir do corpo não é apenas um valor dentre outros, ele está implicado de algum modo na apreensão de todos os motivos e, através dele, de todos os valores. O corpo é "ter e ser" simultâneo e alternativamente. O ter encarnado do sentir movimento requer uma linguagem privativa para ser, para se dizer as palavras; estas, por sua vez, produzem forças que atravessam o corpo: um corpo pragmático que fomos explorar.

Antes de começar a atividade, chegando nas aulas, colocava a interrogação: "Como você percebe seu corpo neste momento?". Pelos depoimentos obtidos, pude observar que a condição de ser corpo para esses pacientes, é na condição de dor, doença, rigidez, dificuldade, peso, ou então, de fragilidade do sentir-se com: juízo mole, cansada de tanto sofrer , o espírito morto, etc...

Os longos anos de internação, acrescido de sua enfermidade e medicação, o corpo sofre a inibição de poder se expressar, fazendo-o apenas pela dor: Sinto muitas dores no corpo. O corpo cansado, magro, suado, com sono, enjoado. A dor sobrepõe e dá sentido para a vida, para o existir. O sujeito substitui a possibilidade de expressar o prazer, ou seja, viver no completo, no pleno, e na possibilidade de estar e viver na falta, no incompleto, na insatisfação, enfim, com sentimento de vazio. Ao falarem de si, falavam de suas faltas. Nunca fui criança, já nasci grande, só trabalhei. Não tenho sensação nenhuma. O corpo sente saudades; Mergulhando em uma angústia generalizada, viscosa: Quando fico travada, o corpo torna-se pesado, duro e não dá para esticar .

Sentir -se incompleto, sentimento de fraqueza, é o pano de fundo de um real tédio do corpo, de uma inutilização eutônica das forças deste, de um afogamento nas formas de vida que não trazem de volta o prazer. Sente-se mal, devido a sensação de ressecamento por dentro. Quando o corpo volta tal e qual, não digerido, não metabolizado, é porque o corpo não avançou; a corporeidade não está promovida. A repetição constante de um estado de corpo ou de uma situação de vida que não leva o sujeito a transcender, enterra o corpo e o fixa em seu "já-aí".

Este corpo passado-presente incorpora, a meu ver, a condição de ser doente psiquiátrico. Fatigado e cansado de tanto sofrer, torna-se paciente, passivo, eximindo-se de qualquer compromisso e responsabilidade. Sempre sofrendo, sem demonstrar o menor sinal de um desejo de saúde; ao que tudo indica, a doença e as dores (O corpo tem saúde quando não sente dores), o expropria não só do seu ser, mas cava mais fundo, rouba-lhe o desejo de ser. Estar com saúde, para estes sujeitos, é voltar a ter vontade de viver, é sentir o corpo vivo. É na saúde que o corpo é valorizado, e que os problemas cotidianos não sobrepõem a sensação de estar bem.

Nas aulas sente-se melhor; a dor pára, o corpo se anima e não fica cansada. Ao se reapropriar do sentir de seu corpo como forma concreta de perceber os seus contornos e integrá-lo encontram nas aulas de educação física um recurso, um espaço de diálogo de valorização corporal e, quiçá, de uma experiência de unidade, mesmo que fugaz. O corpo inerte, doído, sofredor, adormecido pelos longos anos de internação, imobilidade, repressão, é chamado a agir, a recuperar o vigor perdido (ao brincar sente-se bem e o corpo fica transparente, levinho e molinho).

Brincar, usufruir, experimentar, movimentar-se, é apropriar-se da identidade perdida e do desejo logrado de viver.

Ao solicitar da presença do corpo para Si, nos próprios alicerces do Si, redescobrem as possibilidades de um corpo que é percebido como contraído. (Fazer exercício é difícil, o corpo é rígido), adormecido (Não sente se respira).

Pelas vivências de exercícios, a pessoa é chamada a retomar a lucidez mínima; não de um corpo dissociado, fragmentado; mas de um corpo concreto que naquele momento sente sua presença; Quando dança fica alegre ou Ao ser tocada recebe atenção, o corpo fica mole, gostoso .

As relações corporais apelam à tonicidade muscular com exercício do relaxamento, o corpo fica relaxado, frouxo, esquecido, leve. A hipertonia ligada as emoções pode ser abrandada à medida que a pessoa trabalha seu corpo para fazer dele um instrumento ágil, que permite uma EXPRESSÃO do mesmo para se reconhecer. O relaxamento, bem como a massagem, despertam para o sensorial: Durante a massagem o corpo fica melhor . O relaxamento introduz para estádios de domínio do tônus muscular ; trata-se, então, de perceber e aprender a qualidade de estados de tensão muscular para ser livre e agir.

O corpo passa a ser um espaço expressivo e de movimento; ao fazer atividades, sendo solicitado, se olha, toca, dança, ouve música; os sujeitos destas pesquisa foram dando sentido e significado para as suas ações. Compreenderam o que estavam fazendo, experimentaram o acordo entre aquilo que desejam e aquilo que lhes é dado. Assim, nossos sujeitos, ao dialogarem com as atividades propostas, foram retomando o sentido do corpo, agora não mais com o estigma de "serem pacientes psiquiátricas", mas para o sentido original e amplo de ser, existir...

Dançar é bom e dá uma sensação de tesão de homem. Ao ouvir música sente-se sublime. Quando dança fica alegre. Com a música, o corpo fica alegre, sem problemas sem tormentos e sente amor. Nas aulas as atividades davam forma ao afeto, pois havia o espaço garantido para a sua expressão . Estas expressões, e experiências é que julgo ser um caminho, um instrumento para sua reestruturação interior.

É importante observar alguns pontos relevantes objetivando à reflexão:

Ao ser acometido de um problema psiquiátrico, o sujeito se vê denunciado em sua fragilidade e na dependência que terá em relação aos outros. A institucionalização rompe a ligação desse paciente com sua vida cotidiana de então, e a ausência de um projeto, de uma meta pessoal, fá-lo perder sua identidade, sua corporalidade, tornando-o imóvel, vulnerável, adormecido. Ele passa a ter um corpo que perdeu o direito de usufruir de si próprio. Surgem os pacientes cronificados - aqueles que, na maioria das vezes, não possuem mais vínculos com seus familiares - surgem justamente pelos longos anos de internação, de enfermidade, de medicação, de ausência de si e do mundo.

Assim, a dor emocional e física, a dor abstrata e concreta, sobrepõem a tudo e dão outro sentido para a vida, para o existir, gerando, no sujeito, a substituição de experimentar o prazer, pelo mergulho em uma angústia generalizada e viscosa.

Após desenvolver o programa de atividade físicas, alguns pontos ficaram claros:

Ao tocar o próprio corpo, o compromisso de participar ativamente nas atividades, a conquista dos espaços, a criação e a improvisação de movimentos, a possibilidade de verbalizarem o que estavam sentindo ou desejando fazer, permitiu que as relações interpessoais se consolidassem.

Como professora de Educação Física em contato com as pacientes via, diante de mim, não uma causalidade linear que alguma técnica já reconhecida pudesse resolver. O que se apresentava a minha frente era um ser humano em situações circulares e desafiadoras.

Não havia como isolar o causador e o causado. A compreensão do fenômeno exigiu que se voltasse para a unidade da presença , justamente pela ressonância de deslocamento de um profundo sentido que o próprio fenômeno expressa em si. O corpo trabalhado não foi um corpo exterior ao próprio sujeito, mas um corpo encarnado e articulado aos seus fios intencionais, que produziu um religar ao seu redor, revelando o sujeito percebedor do próprio mundo.

Ser paciente psiquiátrico e fazer Educação Física junto com outros pacientes desvela a disponibilidade que cada um tem de estar compartilhando o mesmo espaço com o outro. O corpo, quando está doente integra-se, reencontra-se, compreende-se na relação de semelhança e complemento do outro. É na relação de um com o outro que se estabelece o outro e o eu mesmo, como seres individuais corporalmente no mundo. A existência corporal é encontrada como unidade originária, como totalidade primordial, a partir da qual se pode distinguir, analisar, compreender o mundo e sua condição de paciente psiquiátrico.

Ao fazer uma pesquisa sobre a ótica qualitativa, usando como abordagem metodológica a modalidade do fenômeno situado, passei a fazer parte do objeto da pesquisa.

Percebi, com esse trabalho, que apesar de ser sensível ao outro, com sua dor, sua cólera, seu temor, suas ansiedades..., nunca terão para ele o mesmo sentido que para mim. Para os sujeitos desta pesquisa foram situações vividas; para mim, situações apresentadas, o que vem ressaltar a ambigüidade do único de que falei acima. Por um movimento de amizade participei da experiência de um outro.

A modalidade Fenômeno situado levou-me a viver minhas percepções com vívidas emoções. Entretanto, as exigências acadêmicas deste trabalho intimaram a intervenção da racionalidade, ao mesmo tempo em que o fenômeno fazia-se comunicar pela palavra do sujeito. O fenômeno impunha-se, não como uma verdade para toda uma inteligência, mas como um real para todo o sujeito que partilha as experiências.

Profa Dra. Silvana Venâncio - Universidade Estadual de Campinas

Faculdade de Educação Física -Cidade Universitária Zeferino Vaz s/n

Campinas SP - Brasil - CEP: 13083-970 - Caixa Postal: 6134

e-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

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1 Pacientes cronificados: são pacientes que perderam os vínculos sociais e ou afetivos devido a duração da doença ou pelo longo período de internação em instituições psiquiátricas.

6 "Analise nomotética não é apenas uma verificação cruzada da correspondência de afirmações reais, mas uma profunda reflexão sobre a estrutura do fenômeno.

As generalidades obtidas nesta análise indicam a iluminação de uma perspectiva do fenômeno, considerada inesgotável abrangência do seu caráter perspectival. Outras pesquisas contribuirão para desocultar outros aspectos do fenômeno, na direção de sua plenitude. "(Machado, 1992, p28)"