Saúde e Tempos Livres

Avaliação da mobilidade funcional...

Avaliação da mobilidade funcional, da flexibilidade e força muscular de membros inferiores de indivíduos de meia-idade submetidos a um programa regular de exercícios físicos.


Danielli Beatriz Gruhn Damasceno- Fisioterapeuta graduada pelo UNASP
Heber de Souza Lopes Francisco- Fisioterapeuta graduado pelo UNASP
Fábio Marcon Alfieri- Doutorando em Ciências Médicas USP, Docente do Curso de Fisioterapia do UNASP- Centro Universitário Adventista de São Paulo- SP - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

RESUMO:
Com o processo de envelhecimento, algumas alterações como diminuição de flexibilidade, força muscular, equilíbrio e coordenação podem se manifestar. O objetivo deste estudo foi verificar a influência regular de um programa de exercício físico sobre flexibilidade, força muscular e mobilidade funcional de indivíduos de meia idade.

O estudo envolveu indivíduos de ambos sexos, sedentários, porém saudáveis, com idades compreendidas entre 40-60 anos. Os participantes que tinham 41,37 ± 7,25 anos foram submetidos à dinamometria de membros inferiores e tronco, teste de flexibilidade e mobilidade funcional (Timed Up and Go). (...)

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Mobilidade funcional de idosos submetidos a exercícios multi-sensoriais

Fábio Marcon Alfieri - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.  – doutorando em Ciências Médicas pela USP, docente do curso de Fisioterapia do UNASP-SP


O envelhecimento traz consigo alterações na mobilidade funcional. O objetivo deste estudo foi o de verificar a influência de um programa de exercícios multi-sensoriais sobre a mobilidade funcional de indivíduos idosos. Participaram deste estudo, 13 idosos com idade média de 62,69 ±3,3 anos, que realizaram programa de intervenção multi-sensorial durante 12 semanas. Os voluntários realizaram avaliação da mobilidade através do teste Timed Up and Go (TUG). Antes da avaliação o valor foi de 10,51 ±1,45 segundos, reduzindo de forma estatisticamente significante (p<0,05) para 8,85 ±0,8 segundos após a intervenção. O resultado permite inferir que idosos que participam deste tipo de atividade apresentam melhora na mobilidade funcional o que contribui para a execução de atividades cotidianas e diminuição de quedas.

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Controle postural em jovens ativos x sedentrios

Autores: Diego M Santos, Ione L. Carniato; Fábio Mosconi; Fábio Marcon Alfieri.

RESUMO

O controle postural é essencial para as atividades de vida diária. A propriocepção, que é a capacidade que o ser humano tem de perceber o posicionamento estático e dinâmico do corpo, faz parte deste controle. Na pratica esportiva, sabe-se que essa é uma habilidade indispensável para o bom desempenho físico e está diretamente relacionada com a diminuição do risco de lesões osteomioarticulares. Este trabalho buscou avaliar a influência de exercícios com pesos (musculação) no controle postural. Participaram do estudo dez indivíduos do gênero masculino (idade 20,9 ± 0,34 anos), destes, cinco praticavam atividades com pesos mais que 4 vezes por semana há mais de 1 ano, e cinco indivíduos sedentários no grupo controle.

O controle postural foi mensurado com base em três índices: total, ântero-posterior e médio-lateral, por meio do Biodex Balance System, no setor de Medicina e Reabilitação Esportiva do Hospital do Coração – Hcor, São Paulo - SP. As médias de todos os resultados foram calculadas. Ao avaliar as diferenças entre os grupos pelo teste de Wilcoxon, não houve diferença significante entre os grupos (P>0,05). Pode-se concluir que neste grupo a prática regular de exercícios com peso não permitiu diferença significante sobre o controle postural quando comparado com o grupo controle.

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Estimação da massa gorda a partir do índice de massa corporal: equações de predição para raparigas e rapazes com idades compreendidas entre 9 e 15 anos

  Luís B. Sardinha (1) e Maria H. Moreira (2)

 

(1) Núcleo de Exercício e Saúde, Faculdade de Motricidade Humana, Universidade Técnica de Lisboa

(2) Secção de Desporto da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Endereço para Correspondência:

Luís Bettencourt Sardinha

Núcleo de Exercício e Saúde

Faculdade de Motricidade Humana

Estrada da Costa, Cruz-Quebrada

1499 Lisboa

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A obesidade pediátrica, tal como avaliada pelo excesso de tecido adiposo, constitui-se como um importante problema de saúde pública nos países desenvolvidos (Maffeis et al, 1993; Rosner et al, 1998). Em crianças e adolescentes, valores de percentagem de massa gorda (%MG) superiores a 25% (Williams et al, 1992 ) ou 20 % (Dwyer, 1996) nos rapazes, e superiores a 30% (Williams et al, 1992; Dwyer, 1996) nas raparigas tendem a estar associados a alterações aterogénicas, nomeadamente ao aumento da pressão arterial e dos lípidos. Conquanto seja reconhecida uma predisposição genética para a obesidade, factores envolvenciais como os hábitos de alimentação e de actividade física contribuem para a sua maior ou menor prevalência. A par de qualquer programa de actividade física, é assim importante incluir uma avaliação tão precisa quanto possível da composição corporal dos jovens.

Tendo em consideração a imaturidade biológica dos jovens e respectivas consequências na redução da densidade da massa isenta de gordura (MIG), a avaliação da %MG nos jovens requer a utilização de métodos analíticos desenvolvidos tendo em consideração modelos multicompartimetais (Sardinha, 1997 ). Muitos destes métodos não estão disponíveis para uma utilização eficaz no contexto escolar. Como alternativa é muitas vezes utilizado o índice de massa corporal (IMC), embora indicadores morfológicos tão simples de medir como o perímetro da cintura ou o diâmetro sagital, reconhecidos por uma maior especificidade na associação com factores de risco cardiovascular (Teixeira et al, 1998), inexplicavelmente, ainda não tenham uma utilização generalizada nos contextos clínicos e escolares. A utilização do IMC (kg/m2) como indicador de obesidade é teoricamente questionável, já que a relação entre o IMC e a %MG durante o crescimento pode ser afectada de uma forma diferenciada pelas alterações selectivas na massa muscular e óssea. Não obstante estas limitações, ao IMC é reconhecida alguma sensibilidade para processos generalizados de rastreio de condições de excesso de peso ou obesidade (Himes & Dietz, 1994), para a monitorização do tratamento da obesidade em adolescentes (Smith et al, 1997) e tende a estar associado com indicadodores de morbilidade (Lusky et al, 1996). Recentemente o IMC foi também utilizado para estudar a estabilidade longitudinal da obesidade desde a infância e adolescência até à idade adulta, tendo sido observado que o risco relativo da obesidade durante a infância é de 1,3 e durante a adolescência é de 17,5 (Whitaker et al, 1997). A utilização do 85º ou do 95º percentil do IMC para a definição de excesso de peso e obesidade (Himes & Dietz, 1994) tende a sobrestimar a prevalência destas condições nas idades mais jovens quando são adoptados critérios referenciados à saúde e baseados na %MG (Oberzanek, 1993). A especificação da obesidade, nomeadamente em jovens, é um processo caracteristicamente dependente do método que é utilizado para o efeito. Nestas circunstâncias, é cada vez mais importante esclarecer as características da associação entre o IMC e a %MG.

Devido à reconhecida associação entre o IMC e a %MG, é possível efectuar a predição desta última através da medição do IMC. Considerando o facto do peso e da altura serem medidas muito simples e com pequeno erro intra (precisão) e interobservadores (objectividade), a predição da %MG através do IMC constitui-se como um processo bastante atractivo (Deurenberg et al, 1991). Esta associação tem sido apreciada com métodos de referência baseados em modelos bicompartimentais (Duerenberg, 1991; Travers et al, 1995), cuja raiz teórica não se adequa à avaliação de crianças e adolescentes. Com amostras diminutas (Goran et al, 1996; Gutin et al, 1996) e com procedimentos sem a utilização de validação cruzada (Pietrobelli et al, 1998 ) tem também sido estudada em crianças e adolescentes a relação do IMC com a %MG avaliada por densitometria radiológica de dupla energia (DXA). Tratando-se de um método baseado num modelo tricompartimental em que na estimação da %MG é considerada a variação da massa óssea, a DXA constitui-se como um método com validade reconhecida (Ellis et al, 1994, Goran et al, 1996) em que é estimada a massa gorda, a massa óssea e a massa isenta de gordura e de mineral ósseo. Foi assim objectivo do presente estudo desenvolver equações preditivas para a estimação da %MG com base no IMC de raparigas e rapazes com idades compreendidas entre os 9 e 15 anos de idade, utilizando para o efeito o princípio de validação interna cruzada.

Métodos

Sujeitos

Participaram neste estudo 397 crianças e adolescentes (9-15 anos) aparentemente saudáveis, sendo 192 do sexo feminino (idade; 12,6± 1,8 anos: peso; 47,6± 11,5 kg: altura; 1,52± 0,09 m: IMC; 20,5± 7,6 kg× m-2: %MG; 29,0± 7,6) e 205 do masculino (idade; 12,9± 1,7 anos: peso; 49,7± 13,4 kg: altura; 1,54± 0,12 m: IMC; 20,6± 3,9 kg× m-2: %MG; 21,3± 10,1). As avaliações foram efectuadas após consentimento prévio das mesmas e/ou dos pais.

Medidas Antropométricas e de Composição Corporal

A pesagem foi efectuada em roupa interior e descalço, com o peso do corpo distribuído sobre o dois pés. A medição foi efectuada com aproximação às 100 g, tendo sido utilizada a balança de escala electrónica digital SECA. A avaliação da altura foi realizada com o estadiómetro SECA (± 1 cm) e em posição antropométrica. Uma vez conhecidos os valores do peso (kg) e da altura (m) foi calculado o IMC.

A composição corporal (percentagem de massa gorda) foi determinada através da densitometria radiológica de dupla energia (DXA), com o modelo Hologic QDR-1500 e a versão de software 5.63. No nosso laboratório o desvio-padrão e o coeficiente de variação de medidas repetidas na %MG nos mesmo sujeitos é de 0,4% e 1,8%, respectivamente (Sardinha et al, submetido).

Análise Estatística

A amostra foi aleatoriamente dividida em grupo A (grupo de validação) e grupo B (grupo de validação cruzada), para a amostra de raparigas e rapazes, com o objectivo de serem validadas as equações preditivas. Para este efeito foram utilizadas regressões simples e múltiplas tendo como variável dependente a %MG e como variáveis independentes com o IMC e a idade. Uma vez obtidos os valores da %MG predita em cada uma das amostras, eles foram comparados com os da %MG observados ou de referência, tendo sido aplicada a técnica estatística teste t para amostras pares. O nível de significância foi estabelecido a p<0,05.

Resultados

No quadro 1 é indicada a média e o erro padrão da média das variáveis em estudo (altura, peso, IMC e gordura corporal relativa avaliada na DXA) dentro de cada um dos grupos (A e B) e para a totalidade dos rapazes e raparigas. Em média, os rapazes são 2 cm mais altos que as raparigas, 1,54± 0,01 m e 1,52± 0,01 m respectivamente, e manifestam valores de gordura relativa (21,33± 0,71 %MGDXA) inferiores às raparigas (29,02± 0,55 %MGDXA).

Quadro 1 - Características dos grupos A (validação), B (validação cruzada) e A+B da amostra de raparigas e rapazes.

VariáveisGrupo AGrupo BGrupo A+BMin-Max

Raparigas (n)

10191192192

Altura (m)

1,52 ± 0,01

1,51 ± 0,01

1,52 ± 0,01

1,29 - 1,74

Peso (kg)

48,77 ± 1,14

46,38 ± 1,20

47,64 ± 0,83

25,10 - 80,6

MGDXA (%)

29,78 ± 0,80

28,17 ± 0,75

29,02 ± 0,55

9,23 - 50,6

IMC (kg/m2)

20,82 ± 0,35

20,12 ± 0,35

20,49 ± 0,25

13,90 - 31,5
     

Rapazes (n)

99106205205

Altura (m)

1,55 ± 0,01

1,54 ± 1,22

1,54 ± 0,01

1,28 - 1,89

Peso (kg)

49,69 ± 1,43

49,70 ± 0,01

49,69 ± 0,93

22,90 - 104,9

MGDXA (%)

20,94 ± 1,01

21,69 ± 0,99

21,33 ± 0,71

4,20 - 59,7

IMC (kg/m2)

20,49 ± 0,45

20,70 ± 0, 34

20,60 ± 0,28

13,20 - 46,7

MGDXA-massa gorda (%) avaliada na DXA; Min-Max - valores mínimos e máximos de cada variável em estudo

Em qualquer um dos sexos existem valores patológicos de gordura corporal (>25% para os rapazes e >30% para as raparigas), com 62 raparigas (32,3%) e 60 rapazes (29,3%) nessas condições, com a %MGDXA a variar entre 32,2 e 50,6 nas primeiras e 25,1 e 59,7 nos rapazes. Uma vez verificada a inexistência de multicolinearidade entre as variáveis preditoras (r< 0,80), e uma vez garantida a estabilidade dos coeficientes de regressão, procedeu-se à determinação dos mesmos para cada variável preditora (IMC e idade) e ao valor da constante da equação para os dois sexos.

Em cada grupo de validação foram desenvolvidas equações de regressão que foram aplicadas posteriormente aos respectivos grupos de validação cruzada. As médias de %MG predita foram então comparadas com as médias de %MG observada. Para tal, foi utilizado o teste t para amostras pares, estando os resultados obtidos para raparigas e rapazes expressos no quadro 2.

 

Quadro 2 - Percentagem de massa gorda observada e diferença entre esta e a massa gorda predita dos grupos de validação (A), de validação cruzada (B) e para a totalidade das raparigas e rapazes (A+B)

Grupo

(n)

%MG

observada

A B A+B

Raparigas (192)

29,02 ± 0,55

0,06 ± 0,31

-0,19 ± 0,31

0,03 ± 0,31

Rapazes (205)

21,33 ± 0,71

-0,32 ± 0,42

0,33 ± 0,42

-0,16 ± 0,42

Considerando que não foram observadas diferenças entre os dois grupos, estes foram agrupados num só para o desenvolvimento das equações de predição. A última coluna do quadro 2 apresenta as diferenças entre os modelos que incluem o IMC e a idade e que estão indicados no quadro 3. Neste quadro estão apresentados os modelos de regressão e respectivos desempenhos tal como avaliados pelos coeficientes de correlação, erro padrão de estimação e o coeficiente de correlação ajustado. Em cada grupo de validação foram desenvolvidas equações de regressão que foram aplicadas posteriormente aos respectivos grupos de validação cruzada.

 

Quadro 3 – Modelos de regressão utilizando a percentagem de massa gorda (variável dependente), o IMC e a idade (variáveis independentes) nas raparigas e nos rapazes.

Amostra

(n)

IMC

(b)

Idade

(b)

Intercepção

R

EPE %MG

R2 Ajustado

Raparigas

1,73 ± 0,10

-----

-6,41 ± 2,03

0,79

4,7

0,62

(192)

1,92 ± 0,10

-1,11 ± 0,19

3,72 ± 2,54

0,83

4,3

0,68

       

Rapazes

1,74 ± 0,13

-----

-14,58 ± 2,74

0,68

7,4

0,46

(205)

1,77 ± 0,11

-2,67 ± 0,25

19,40 ± 3,92

0,81

6,0

0,65

b, coeficiente de regressão; R, coeficiente de correlação; EPE, erro-padrão de estimação.

Para as raparigas foi desenvolvida a equação %MGDXA= 1,92*IMC-1,11*idade+3,72, (EPE da %MGDXA=4,3, R2 ajustado=0,68) sendo apenas 32% da variação da variável dependente explicada por outros factores que não as variáveis preditoras presentes na equação. Não existindo diferenças significativas entre os valores preditos e os de referência (%MGDXA) a equação manifesta uma razoável fidelidade preditiva já que possui um R elevado (R=0,83), mas um erro padrão de estimação de 4,5 o que é bastante elevado. Para os rapazes foi desenvolvida a equação %MGDXA=1,77*IMC-2,67*idade+19,4 (EPE da %MGDXA=6,0, R2 ajustado=0,65). Embora os coeficientes de correlação possam ser considerados similares em ambos os sexos, nos rapazes o erro de predição é maior. Considerando os coeficientes de regressão negativos observados para a variável idade nos dois sexos, para qualquer valor de IMC, sujeitos mais velhos têm uma %MG inferior.

Discussão

Qualquer uma das equações preditivas apresentou valores elevados de associação com o método de referência. No entanto, o erro de predição obtido em cada uma delas foi muito elevado (> que 3,5%) apesar de, para além do IMC, ter sido também considerada a idade nos modelos de regressão. De acordo com estes resultados o IMC parece ser um indicador da concentração de tecido adiposo, embora sob o ponto de vista individual a predição da %MG esteja sujeita a uma elevada variabilidade, sendo assim difícil utilizar o IMC nesta aproximação correlacional para uma definição de obesidade baseada em critérios de saúde (Williams et al, 1992; Dwyer et al, 1996). Esta é uma condição mais marcada nos rapazes, já que a precisão da equação foi inferior à das raparigas, com um erro padrão de estimação de 6,0 de %MG. Considerando que não foram observadas diferenças entre os valores de %MG preditos e os de referência (p>0,05), é de realçar essencialmente a necessidade de interpretar nestas circunstâncias os valores do erro padrão de estimação. Atendendo às correlações observadas com a %MG, o IMC pode ser considerado como uma alternativa residual para a definição de obesidade tendo em consideração valores normativos (Himes & Dietz, 1994). Contudo, esta definição normativa tem que ser apreciada de uma forma muito conservadora, já que nalguns grupos populacionais tem sido observada uma tendência para o aumento do IMC na ordem 9 a 10% (Rosner et al, 1998). Isto é, uma definição percentílica da obesidade estará dependente da distribuição da amostra, o que, de acordo com a informação referida, parece ser um fenómeno que tende a observar-se nos últimos anos. Nestas circunstâncias, uma definição de obesidade, p.e., ao 95º percentil significa tão somente que com o aumento generalizado do IMC os jovens serão identificados como obesos a valores superiores de IMC. Esta possibilidade não tem qualquer plausibilidade biológica, já que a associação da concentração de tecido adiposo com os mais variados factores de risco não é dependente de alterações da distribuição da amostra.

Resultados similares aos verificados no presente estudo foram reportados recentemente por Pietrobelli et al (1998). Utilizando também a DXA como método de referência, foram observados valores elevados de correlação e de erros padrão de estimação, e 5,5 e 7,34 %MG para as raparigas e rapazes, respectivamente. A elevada variabilidade em torno da regressão foi também observada por Duerenberg et al (1991) utilizando um método de avaliação da %MG com base num modelo a dois compartimentos. Com amostras mais reduzidas e com intervalos etários mais pequenos, outros dois estudos também reportaram valores similares de correlação entre 0,67 e 0,79 (Goran et al, 1996; Gutin et al, 1996).

Embora com valores numéricos diferenciados, estudos longitudinais efectuados com crianças e adolescentes demonstraram que o risco de uma adulto ter excesso de peso é muito superior quando em criança já manifestava peso a mais, sendo essa persistência mais acentuada em casos extremos de excesso de peso e quando o mesmo é prolongado até ao final da adolescência (Must, 1996, Whitaker et al. 1997). As equações preditivas da %MG para crianças com idade inferior a 16 anos podem ser úteis no âmbito de intervenções comunitárias e em contextos como a escola, impedindo que as mesmas venham a tornar-se adultos obesos através de uma intervenção selectiva visando a modificação dos hábitos alimentares ou do aumento da actividade física. Em conclusão, a avaliação da adiposidade através da utilização independente do IMC ou através das equações de regressão representa uma alternativa aceitável sob o ponto de uma avaliação comunitária. Pelo contrário, numa aproximação individual devem ser utilizadas outras técnicas de estimação da %MG, já que o IMC tende a ser inespecífico para este efeito.

Referências

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Himes, J.H. & Dietz, W.H. (1994). Guidelines for overweight in adolescent preventive services: recommendations from a expert committee. American Journal of Clinical Nutrition, 59, 307-16.

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A intervenção do programa de actividades físicas para idosos, da câmara municipal do Porto, na reestruturação dos hábitos de vida dos seus frequentadores

 

AUTOR: LEONÉA VITORIA SANTIAGO

INSTITUIÇÕES: UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS - EDF/BRASIL

UNIVERSIDADE DO PORTO - FCDEF / PORTUGAL

 

RESUMO

Desde tenra idade os hábitos de vida exercem um papel preponderante na vida dos indivíduos, organizam-lhes a vida e até mesmo possibilita uma segurança ontológica. Neste estudo entende-se estilo de vida na perspectiva de Giddens (1994:73), como "práticas rotinizadas, as rotinas incorporando-se em hábitos de vestir, comer, modos de agir e meios favorecidos para o encontro com os outros". O estudo se inscreve numa perspectiva sócio-antropológica do desporto e tem como objetivo verificar em que medida o Programa de Atividades Física para Idosos, oferecido pela Câmara Municipal do Porto intervem nos hábitos de vida dos seus frequentadores. As estratégias metodológicas empregadas foram: as recolhas etnográficas com enfoque fenomenológico ou seja perceber a ação ao nível do sentido do vivido e não pura e simplesmente a sua descrição e as auto-narrativas de identidade, onde oportunizou-se aos indivíduos falarem sobre os hábitos que estruturam a sua vida cotidiana, e uma possível relação com as atividades físicas oferecidas pelo programa. Para a análise dos dados foram levantadas categorias a partir dos discursos dos idosos frequentadores do Programa onde evidenciou-se: a) a sociabilidade como um discurso uníssono b) na saúde existe a crença tanto no ganho como na sua manutenção c) a ocupação do tempo livre d) a re-ligação com o passado jovem e) o retorno da atenção familiar. Estas categorias também foram evidenciadas mediante observações diretas das atividades, a fim de complementar os discursos e possibilitar alguma verossimilhança entre os significados dos discursos e as representações da pesquisadora sobre o universo observado. Este estudo nos levou a concluir que diante da natureza móvel das auto-identidades, os frequentadores das atividades reestruturaram os seus hábitos de vida, não só no seu modo de agir, mas sobretudo no seu modo de ser. De fato este grupo adquiriu características pouco tradicionais para indivíduos desta faixa etária; portanto admite-se estar diante de um grupo emergente do seio da tradição da sociedade portuguesa.

Âmbito e Objetivo

O presente estudo insere-se no âmbito qualitativo, sócio-antropológico, pois tem como objetivo verificar a construção dos sentidos que orientam a intervenção de um programa de atividades físicas nos hábitos de vida dos seus frequentadores. Sentido aqui é entendido como direção, como norte, como orientação fundamental das escolhas de vida e é este sentido, o da existência que nos impulsiona pressionando as -modificações do nosso mundo, do nosso lugar na vida, do nosso trabalho, do nosso lazer portanto, de todos os nossos hábitos. Admitimos a pespectiva de Giddens (1994:73), para o entendimento de estilo de vida, onde este pode ser adotado mediante a um conjunto de "práticas rotinizadas, as rotinas incorporando-se em hábitos" que o indivíduo adota não só para atender aos seus gostos e as suas necessidades utilitárias, mas também porque sustentam a sua narrativa de auto-identidade. As escolhas assumidas, as decisões tomadas pelo indivíduo intervém não só no seu modo de agir e pensar, no seu conjunto de valores e normas orientadoras, como também no seu modo de ser, onde então a narrativa de auto-identidade com a sua natureza móvel, acompanha as possíveis modificações estruturando ou reestruturando os seus hábitos de vida.

Os estudos nesta dimensão buscam compreender o fenômeno na sua essência para poder interpretá-lo; e este compreender decorre num estado de ânimo, onde Heidegger diz, que sempre evidencia o modo pelo qual o ser-no-mundo é afetado pelas coisas e/ou pelos outros que povoam os seus caminhos. Ontologicamente, o estado de ânimo é uma maneira do indivíduo referir-se ao mundo, aos entes, aos outros indivíduos e a si mesmo diante das situações do cotidiano. No âmbito fenomenológico-existencial não há indivíduo sem inserção no-mundo, sem o seu plexo de referências, sem o seu contexto de funcionalidade. A cada movimento humano sempre surge algo novo ou de novo, o que dá início a uma rede de relações significativas que vai complementando-se no outro e com outro; também por meio do seu movimento vão iniciando algo novo ou de novo. Forma-se deste modo, uma trama de sentidos, e a esta rede de relações significativas Heidegger denomina de mundo. Assim, tudo o que for dito ou compreendido dos indivíduos será sempre a partir de uma visualização efetivamente contextualizada, pois é dentro deste movimento de realização que os comportamentos culturais se produzem.

Casal (1996) nos diz que a compreensão e a interpretação são os caminhos seguidos pelos estudos sócio-antropológicos, com o intuito de buscar teorias que permitam fundamentar e até sustentar epistemologicamente uma prática de campo. Olhar a Educação Física e as Ciências do Desporto por estas lentes ainda é uma tarefa difícil para aqueles que enveredam por estes caminhos.

As atividades físicas oferecido pela Câmara Municipal do Porto, Pelouro de Fomento Desportivo, tornaram-se uma via de acesso ao conhecimento dos valores, o modo de agir e pensar, a rede de relações instituida por estes idosos. O programa teve início em março de 1997, com uma divulgação via a mídia com oferta de apenas um horário de aula, mas atualmente são oferecidos três horários, onde pudemos evidenciar um maior número de turmas a fim de atender a demanda do programa. O seu objetivo é promover e facilitar o aumento da autonomia de pessoas idosas no concelho do Porto por meio da atividade física. É facultada a participação a maiores de 60 anos inclusive, de ambos os sexos, todavia a frequência masculina ainda é bem reduzida mesmo diante do slogan do programa que diz : " NO PORTO A VIDA É LONGA...Actividade Física Para Maiores de 60 Anos". Falando a linguagem de uma vida longa, sugere aos frequentadores da atividade uma proposta de aumento da esperança de vida.

Lovisolo fala que a Educação Física e as práticas desportivas têm como "característica central e positiva a intervenção", e este é o nosso objetivo principal ao acompanharmos as aulas desenvolvidas por este programa. O espaço onde estas acontecem, é o Palácio de Cristal mais precisamente no Pavilhão Rosa. A escolha não poderia ser melhor, pois ao adentrarem nos jardins do palácio todos, sem exceção já assumem uma postura diferente dos seus hábitos costumeiros, das suas práticas rotinizadas, o tratamento dispensado entre os pares é de "meninos e meninas". A chegada as dependências do pavilhão desportivo os deixa em estado de alegria, e por que não dizer de euforia para o encontro com os outros. Isto foi dito como também observado por nós.

A nossa aproximação do grupo foi facilitada por uma das professora que já conhecíamos anteriormente. Logo após as apresentações prévias, sentamos com o gravador, papel e lápis no começo do salão, mas isto não era tudo, fomos observados e os observamos durante toda aquela aula que para nós era a inaugural.

O espaço das atividades nos pareceu mágico, pois encaminhava-os para o movimentar-se. Mesmo antes do início da aula propriamente dita, verificamos que apenas a entrada no salão já incitava-os ao movimento, uns encaminhavam-se para os materiais disponíveis no ambiente, bolas, arcos ou até mesmo escalar uma parede de alpinismo, fato ocorrido em uma visita a um outro espaço de aulas, ou simplesmente tentar fazer uma elevação de braço que muito tem lhe custado nos últimos tempos. Mesmo diante de algumas limitações corporais, a alegria daqueles indivíduos, as suas pré-disposições para as tarefas propostas, os seus estados de ânimo já os difereciavam dos outros indivíduos de mesma idade.

A aula funciona como um núcleo central, uma reunião de pessoas com interesses similares, e como todas as outras aulas possui começo, meio e fim bem definidos, mas o espaço mágico, denso em significações que esta proporciona vai para além, do que estabelecem os manuais de didática ou pedagogia. Convém salientarmos que o nosso objetivo não é pura e simplesmente a aula, mas a gama de sentidos que esta possui para aqueles que dela fazem parte. As aulas acontecem duas vezes por semana e são ministradas por duas professoras que procuram diversificar as atividades como também os ambientes, com o propósito de modificar a rotina. Também incluem-se nos seus conteúdos as datas festivas do calendário, tanto o Carnaval como o São João, são festas bem comemoradas.

Basicamente são propostas atividades simples e moderadas, durante todas as aulas, tais como: andar, subir escadas, exercícios com cadeiras, bolas, arcos, colchões, entre outros, mas o ponto alto das atividades está no dançar e cantar as músicas do folclore português, onde todos bem a vontade movimentam-se no salão, e ninguém deixa de participar das atividades mesmo na ausência de um par. Ainda faz parte do programa um curso de natação que "visa proporcionar a vivência de outras modalidades e a realização de eventos de natureza desportiva".

Diante do contexto geral de apresentações tentamos "quebrar o gelo" das primeiras aproximações para de fato podermos travar uma conversa com os idosos, escutar os relatos e comentários não só sobre as atividades, mas de todos os comportamentos por ela suscitados. Depois de algum tempo passamos a ser confidente de uns, principalmente das senhoras que nos revelaram questões afetas a vida familiar, e afirmavam que as atividades tinham uma função tranquilizadora nos seus quadros de problemas domésticos. Já os senhores nos perguntavam sobre a velhice do povo brasileiro, matéria desconhecida de muitos, pois o Brasil ainda se apresenta como um país bem jovem; e inclusive o que nós pretendíamos verificar junto a eles... "e como estas informações serão úteis no vosso trabalho… "

 

Estratégias metodológicas

A especificidade científica da Antropologia, incluindo as suas virtualidades epistemológicas, nos permite admitir os seus créditos teóricos e metodológicos advindos da própria natureza do objeto estudado. Junto com a fenomenologia percorremos o caminho que privilegia no indivíduo os seus possíveis modos de ser no mundo, onde ele desde o nascimento assume tais modos, apropria-se, desenvolve-os e põe-nos em curso até morrer. Os movimentos, os gestos e as falas fazem parte do ato de criação e manifestação do ser. Na fala os indivíduos veiculam os sentidos das coisas, daquilo que existe e lhe é apresentado através de alguma forma de linguagem. Em Heidegger encontramos a linguagem como a casa do ser, portanto o que surge é confirmado e preservado de algum modo, na manifestação da fala. E aqui as narrativas de auto-identidade (Giddens,1994) deram o tom ao estudo.

As recolhas de dados obedeceram aos princípios fenomenológicos numa tentativa de " perceber a ação ao nível do sentido do vivido" e não tão somente a sua descrição. E para tal utilizamos como estratégias metodológicas além, das narrativas de auto-identidade o diário se campo. Com este tipo de estratégia oportunizou-se ao indivíduo falar sobre os seus hábitos de vida, pois eles testemunham as atividades do "corpo próprio e na base da ação situa-se o que sabemos e podemos fazer". Este pensamento fora colocado por Merleau-Ponty no centro da fenomenologia do corpo: "a experiência do eu posso". E com essas expectativas, realizamos entrevistas semi-estruturadas, pois com liberdade guiada para falar assegurou-se que as questões de estudo seriam enfocadas sem a perda da espontaneidade do indivíduo. Em certa medida, o núcleo da auto-indentidade e todo o seu contexto móvel é aflorado via a linguagem.

O diário de campo foi utilizado não só como auxílio na tarefa anterior, anotando-se as impressões obtidas após cada entrevista, mas inclusive como uma oportunidade de complementar os discursos, na busca de uma possível verossimilhança. Portanto, a relação de semelhança entre os significados dos discursos e as representações que apreendemos no universo observado. A utilização deste instrumento não teve a pretensão de verificar o dito, mas de fato se este é verosímil, plausível com as representações mapeadas em campo. E deste modo foram levantadas categorias a partir dos discursos circulantes entre os idosos.

Análise e interpretação dos dados

Os dados foram agrupados em categorias que buscaram compreender as construções de sentidos que possivelmente reestruturaram seus hábitos de vida, a partir da sua frequência ao programa. A saber:

  1. a sociabilidade soa como um discurso uníssono, onde a sua inserção no-mundo passa atualmente pelas trocas que ocorrem dentro deste novo grupo de convívio. Simmel (1986), diz que a sociabilidade é inerente aos homens e que toda a reciprocidade ocorrida entre estes é uma forma de socialização. Especificamente neste grupo, ela atua como elemento de construção ou reconstrução de uma vida autônoma, em busca de um aumento no seu plexo de referências, pois com a chegada da velhice há uma perda dos espaços de interação social, o que numa vida mais ativa lhes proporcionavam até uma segurança ontológica.
  2. na saúde existe a crença tanto no seu ganho como na sua manutenção; sabemos que os valores das atividades físicas atrelados a saúde foram inculcados, construidos socialmente com a contribuição dos médicos e dos especialistas deste tipo de intervenção. E aqui a saúde sempre é associada por eles aos aspectos de uma vida autônoma. Ainda convém salientarmos a forte interferência da mídia nesta inculcação, que apesar de sustentarem-se em bases empíricas, se faz necessário estudos mais consistentes.
  3. a ocupação do tempo livre evidencia-se nos discursos com bastante ênfase, aproveitar o tempo de forma produtiva para manterem-se bem dispostos e mais uma vez evitar as doenças e incomodos causados pelo avanço do tempo na vida. As atividades do programa ao mesmo tempo que ocupam-lhes o tempo livre, que antes era ocupado pelas atividades laborais, acrescentam-lhes boa disposição corporal. A representação social da temporalidade é entendida como uma categoria de pensamento, resultante de construções simbólicas e funciona como referencial para a sistematização dos tempos e para a determinação dos rítmo da vida em sociedade. O tempo estrutura ordenadamente o cotidiano dos indivíduos, ousamos sugerir que o tempo existe ao ser produzido por algum sentido, pois este está presente em qualquer matéria sem ser apanágio de nenhuma delas, é essencial porém transitório.
  4. a re-ligação com o passado jovem surge a partir do seu ingresso no programa, onde verificamos que o seu trajeto passa pelas idas frequentes a um lugar tipicamente estruturado para as práticas desportivas consideradas até então para os jovens. E para fazer parte do programa requer todo um equipar-se tal como nos idos tempos ou como os jovens da atualidade. Ontem um corpo jovem e produtivo, hoje um corpo velho para viver numa sociedade orientada até então para os corpos jovens.
  5. o retorno da atenção familiar surge com as novas atitudes e valores que estes indivíduos assumem ao ingressarem no programa. Na perspectiva familiar já não existem responsabilidades para com os filhos ou com outras obrigações que requerem a sua atenção ou proteção, os laços tornam-se tênues e os círculos sociais diminuem. Contudo, o pertencimento ao programa lhes oportuniza também "ter sobre o que falar …" nos encontros familiares, o incentivo, a admiração e o respeito dos parentes pela adoção destes novos hábitos, causam-lhes "imensa satisfação na vida."

Conclusão

Na perspectiva sociológica a idade não está associada pura e simplesmente a relação de espaço sob o tempo mas às atividades sócio-econômicas que proporcionam características individuais , diferentes projetos de vida, o próprio estilo de vida. Na ótica social, ser velho é perder toda a sua importância, o seu reconhecimento em função do estatuto em que se encontra no presente. Inexoravelmente junto a velhice esta a perda da sociabilidade, aumento do tempo de solidão onde a possibilidade de reconhecimento no outro e com os outro também se reduz. Estas perdas também afetam a autonomia corporal e psicológica.

Neste grupo verificamos que as atitudes básicas que orientam o estar velho na sociedade portuguesa , diferem dos outros indivíduos que possuem a mesma idade, é uma pista, mas que não reflete todos os comportamentos dos idosos portugueses. A participação das atividades lhes oportunizou adquirir hábitos saudáveis, como alimentação mais regrada, práticas corporais regulares e encontros festivos, e isto só foi possível pelo fato de estarem com tempo disponível. A reestrutruração dos seus hábitos de vida foi possibilitada pela garantia simbólica e material que os frequentadores atribuem ao programa, onde estes sentidos estão presentes nos seus depoimentos. Ter encontrado as possibilidades de sociabilidade, manutenção da saúde, ocupação do tempo livre, re-ligação com o passado jovem e de ter o retorno da atenção familiar, assim nos parece que o grupo satisfaz as suas necessidades de reestruturação dos seus hábitos de vida, indo ao encontro de novas possibilidades mesmo encarnados em um corpo velho. Portanto admitimos que este grupo adquiriu características pouco tradicionais para indivíduos desta faixa etária, é um grupo emergente no seio da tradição da sociedade portuguesa.

Referências Bibliográficas

CASAL, Adolfo. (1996). Para uma epistemologia do discurso e da prática antropológica. Lisboa, Edições Cosmos.

GIDDENS, Antony. (1994). Modernidade e identidade pessoal. Oeiras, Celta.

HEIDEGGER, Martin. (1927). El ser y el tiempo. México, Fondo de Cultura Económica, (1974).

LOVISOLO, Hugo. (1995). Educação física: arte da mediação. Rio de Janeiro, Sprint.

PONTY, Merleau. (1964). O visível e o invisível. São Paulo, Perspectiva.

SANTIAGO, L. & LOVISOLO, H. (1997). Master de natação: competição, aprimoramento e expressão. Motus Corporis. Revista de divulgação científica do mestrado e doutorado em Educação Física. vol. 4 – nº2: 84-101. Rio de Janeiro, Universidade Gama Filho.

SIMMEL, Georg. (1986) Sociologia 1 e 2 - Estudios sobre las formas de socialización. Madrid, Alianza Editorial.

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1  Heidegger ( (1927) 1974), Parte l, cap.V: 29-30.

2  Ver sobre este tema em Educação Física: Arte da Mediação, Sprint (1995), onde o autor posiciona-se acerca dos objetivos e valores orientadores como prática da intervenção.

3  As professoras Maria José Passos e Margarida Alves são as responsáveis pelas atividades do referido programa em estudo.

4  As informações relativas a organização, objetivos e gestão do programa em tela, foram fornecidas gentilmente pela Câmara Municipal do Desporto – Pelouro de Fomento Desportivo.

5  Realizamos estudos sobre os Idosos e estilo de vida: a representação social a partir da imprensa, trabalho apresentado no Congresso do EGREPA, Oeiras 1997, entre outros que fundamentam este fato.

6  A utilização na íntegra de frases proferidas pelos indivíduos em causa são apresentadas entre aspas.

7  Lovisolo tem desenvolvido uma linha de pensamento que vincula a postura estética a um "processo de autoconstrução do eu". Aqui citamos como exemplo o artigo de Santiago & Lovisolo, 1997.