- INTRODUCÃO
A presente investigação propõe-se a analisar a dinâmica do desenvolvimento comprovadamente positivo do Voleibol, em determinados locais em Moçambique, com o objectivo de introduzir princípios e procedimentos da experiência histórica concreta da modalidade, a fim de institucionalizar um guia estratégico que entenda, assegure e impulsione, em outros locais do País, o seu desenvolvimento desportivo específico real, inclusive com sua aplicação a outras modalidades, que assim o permitam.
Importa referir que à partida existem os seguintes problemas:
.Em Moçambique, o Voleibol, não é considerada uma modalidade prioritária, pelo Ministério de Cultura Juventude e Desporto;
.Os Clubes clássicos existentes, sobrevivem penosamente, apenas com o Futebol
.Os Clubes e Escolas, têm as instalações deterioradas, e com muito pouco material.
ESSÊNCIA DO TRABALHO:
Basear-se nas condições potenciais de desenvolvimento nas instituições comunitárias, em especial estabelecimentos de ensino, existentes no local com poder de acção social, para possibilitar a intervenção dinamizadora de agentes e organizações desportivas emergentes do próprio local que impulsione o desenvolvimento do Voleibol.
- OBJECTIVOS
Resumidamente, pretendemos investigar a possibilidade de desenvolver a modalidade a partir da acção dos professores de educação física, na prática escolar, e na organização de núcleos da modalidade, a transformarem-se em Clubes, com patrocínio da comunidade civil e empresariado local.
OBJECTIVO 1:
"Identificação dos locais com desenvolvimento comprovado da modalidade."
Critérios de identificação:
. Quantidade de praticantes
. Relação de género de praticantes
. Assiduidade dos praticantes às práticas
. Quantidade de práticas
. Frequência às práticas
. Qualidade de técnicos
. Assiduidade dos técnicos
. Qualidade de dirigentes
. Quantidade de campos de jogos
. Quantidade e frequência de competições
. Quantidade de bolas
. Quantidade de equipas
. Relação quantidade de praticantes / técnicos / dirigentes / campos de jogo / bolas / redes
. Relação praticantes femininos / masculinos.
OBJECTIVO 2:
"Determinação das condições, elementos e factores desse desenvolvimento real."
CONDICÕES:
. Instituição organizada
. Local apropriado
. Assistência regular de jovens
. Alguma actividade regular organizada
. Sociedade civil desenvolvida.
ELEMENTOS:
. Jovens entre 9 aos 18 anos
. Grupos familiares colaboradores
. Agentes técnicos dinamizadores
. Empresários interessados.
FACTORES:
. Físicos
. Sociais
. Culturais
. Institucionais
. Desportivos
. Económica
- METODOLOGIAS
Quantitativa de observação, e relato de experiência;
Quantitativa de levantamento de dados.
- HIPÓTESE
Na situação actual de Moçambique, a prática desportiva - segundo os padrões culturais da alta competição - é um fenómeno urbano limitado às classes sociais mais favorecidas.
Nas zonas rurais e sub-urbanas, sujeitas à extrema privação social em todas as áreas, as condições de vida, assim como as preocupações e motivações familiares e infanto-juvenis, não estabelecem sustento para o empreendimento de clubes clássicos de iniciação e competição desportiva segundo o modelo dos países desenvolvidos.
As diversas instituições governamentais e civís que desenvolvem acções sociais nesses locais estão vocacionadas para questões vitais de saúde e produtividade, onde só há lugar para o jogo recreativo, sem consideração de espaço nem de projecção para a prática desportiva de competição.
Como primeira opção devemos aceitar que pretender desenvolver a modalidade em forma imposta onde não há condições propícias é regressar ao optimismo utópico que frustrou tantos planos bem intencionados de desenvolvimento.
Numa primeira fase devemos apoiar-nos em aquilo que é possível.
Nas zonas urbanas, havendo fracassado o intento de integração com as empresas, os clubes clássicos polidesportivos sobrevivem penosamente, dedicando seus melhores esforços ao futebol.
As outras modalidades vegetam sem apoio ou são preteridas.
Na prática real encontramos que a única instituição com condições para a projecção de modalidades em desenvolvimento é a ESCOLA.
Nas Escolas e locais que reunam certas condições que devemos investigar, é possível motivar NÚCLEOS DE BASE como unidades básicas de desenvolvimento, que, apoiadas e integradas na sociedade civil e seu envolvimento, propiciem a acção de agentes de desenvolvimento da modalidade.
Na situação particular do Voleibol achamos que certos professores de educação física, monitores do Plano Mundial 2001 da Federação Internacional de Voleibol, e professores primários, podem assumir as capacidades de autogestão e autodinamismo para impulsionar sem dependências dos clubes clássicos e das estruturas estatais do desporto.
Consideramos que no Moçambique actual é factivel desenvolver a modalidade a partir das zonas urbanas e peri-urbanas, integradas na rede escolar com mínimas condições e relativo desenvolvimento empresarial.
Assim, nossa experiência visa aproveitar as condições e formas sociais propicias para adequar as acções práticas e organizativas da modalidade às potencialidades de desenvolvimento real do País.
- RESULTADOS
FASES DE INVESTIGACÃO:
- OBJECTIVOS
FASE 1 Identificação dos locais de desenvolvimento comprovado e definição do modelo hipotético;
FASE 2 Determinação dum local potencial a alicação do modelo hipotético;
FASE 3 Análise da experiência e elaboração do modelo guia.
RESULTADOS SUMÁRIOS (exemplo tipo da cidade de Chimoio):
Aplicação do modelo de análise das condições de desenvolvimento
Do objectivo 1: " Identificação dos locais com desenvolvimento comprovado da modalidade"
Critérios de identificação:
-
- Quantidade de praticantes: 173
- Relação de género dos praticantes: 1 fem. / 4 masc.
- Assiduidade dos praticantes às práticas: 69 %
- Quantidade e frequência de práticas: 75%
- Quantidade de técnicos: 4
- Assiduidade dos técnicos: 75%
- Quantidade de dirigentes: 2
- Frequência de participação dos dirigentes: 50%
- Quantidade de campos de jogos: 2
- Quantidade e frequência de jogos (competições): 36
- Quantidade de bolas: 2
- Quantidade de equipas: 7 iniciação, 2 juvenis, 1 júnior
- Relação quantidade de participantes / técnicos: 173 / 4 = 43.25
- Relação quantidade de praticantes / dirigentes: 173 / 2 = 86.5
- Relação quantidade de praticantes / campos de jogo: 173 / 2 = 86.5
- Relação quantidade de praticantes / bolas: 173 / 2 = 86.5
- Relação de praticantes femininos / masculinos: 1 / 4 = 0.25
Do objectivo 2: "Determinação das condições e elementos desse desenvolvimento real"
Condições:
-
- Instituição organizada: semi-estrutura, actividade incluída nos objectivos escolares e humanitários da CVM
- Assistencia regular de jovens: muito motivados apesar de não suficiente movimento juvenil na cidade
- Alguma actividade regular organizada: educação mediante a cultura de prevenção do SIDA e das minas pessoais
- Sociedade Civil envolvida: CVM
Elementos:
-
- Jovens entre 9 a 18 anos: todos estudantes
- Grupos familiares colaboradores: classe média
- Agentes técnicos dinamizadores: professores de EF e estudantes
- Voluntários comunitários organizadores: núcleo da juventude da CVM
- Empresários interessados: só patrocinam nos CN uma vez por ano.
CARACTERÍSTICAS SOCIAIS DOS NÚCLEOS DE DESENVOLVIMENTO DE CHIMOIO:
Tomamos como exemplo este grupo, do desenvolvimento do Voleibol a partir do modelo institucional emergente da Escola e das organizações com influência comunitária.
População Objecto - Grupo:
Pré-selecção Nacional de Júniores Masculinos
Estrutura do Grupo:
Função | Procedência | Vinculação social | Sustento social |
| Jogadores N = 15 | Núcleo Mheni 7 | Juventude CVM | CVM |
| Núcleo Bàrué 5 | Escola Samora Machel | Quiosque Azmir / Video Rent | |
| Núcleo Kudjeca 2 | Escola Samora Machel | Direcção Prov. Educação | |
| Núcleo Soalpo 1 | Escola de Soalpo | Empresa Textáfrica | |
Técnicos N = 3 | Núcleo Mheni 1 | Juventude CVM | familiar |
| Núcleo Mheni 1 | Escola Samora Machel | professor educação física | |
| Núcleo Bàrué 1 | Escola Joaquim Marra | familiar | |
Dirigentes N = 7 | Núcleo Mheni 2 | CVM | profissional |
| Núcleo Kudjeca 2 | Escola Samora Machel | profissional | |
| APVB Manica 1 | Direcção Prov. Educação | profissional | |
| Dir. Prov. Educ. 2 | Direcção Prov. Educação | profissional |
Análises Grupo de Jogadores:
Aspecto | Características |
| Idade | Média = 18.0 |
| Origem | 13 de Chimoio, 1 de Nampula e 1 de Quelimane |
| Estrato social | Dominância paterna = Administração – Operário (estatal e privado) Dominância materna = Doméstica |
| Escolarização | Média de classe = 9.5 |
| Continuidade estudos | Indicador percentual = 1 (todos estudam) |
| Residência | Indicador percentual = 0.27 (dominância: muito próxima) |
| Iniciação | Todos iniciaram a prática espontânea em espaços recreativos informais |
| Anos de prática | Média = 4.8 |
OBSERVACÕES:
IDADE
Média baixa para a categoria de competição, relativamente dispersa,
60% podem participar no campeonato seguinte da categoria.
ORIGEM
Todos passaram infância e adolescência no Chimoio.
ESTRATO SOCIAL
A dominância administrativo-operário no caso paterno e doméstica no caso materno caracteriza a classe média da região; significativamente não aparecem casos do estrato sócio-cultural camponês, maioritário no país e comum na região.
ESCOLARIZACÃO
Alto nível académico para o país, com reduzida variação no grupo, confirmação do estrato social da classe média.
CONTINUIDADE DE ESTUDOS
O facto de todos os jogadores continuarem os seus estudos é atipico no país; indicador social significativo para a identificação do grupo
DISTÂNCIA DO LOCAL DE PRÁTICA
Considerando: 0 =próxima, 1=média, 2=média, 3=muito longe, o indicador percentual do grupo demonstra que todos moram na vizinhança do local de prática.
INICIACÃO DESPORTIVA
Coincidência total, todo o grupo surgiu da prática espontânea no espaço recreativo aberto das escolas da cidade.
ANOS DE PRÁTICA DESPORTIVA
A média e o desvio indicam a homogeneidade de experiência desportiva do grupo.
Análise Equipa Técnica:
Aspecto | Características |
| Idade | Média = 25 anos |
| Formação | SAP (3); 1° nível COI (3); 1° nível FIVB (1); prof. Educ.Física (1) |
| Experiência profissional | Monitores SAP / COI / FIVB média = 5 anos; prof. EF média = 17 anos |
| Relação profissional | Voluntários |
OBSERVACÕES
O grupo técnico é produto do interesse e das acções concretas da FMV, que nas suas planificações sempre teve como objectivo a descentralização da formação com a expansão de cursos pelas províncias do país.
Como característica fundamental destaca-se a não- remuneração da actividade.
Análise Grupo de Dirigentes:
Aspecto | Características |
| Idade | Média = 30 anos |
| Quantidade | Variável |
| Género | Masculino, ainda não há participação feminina significativa |
| Estrato profissional | Dominância docente (professores / directivos), formação média e superior |
| Participação | Voluntários, em função de capacidades – possibilidades |
OBSERVACÕES
A semelhança da equipa técnica, não se baseia em tendências profissionais, assumindo um verdadeiro estatuto de voluntariado, com participação dentro das suas potencialidades e tempo disponível.
A deficiente relação de género é uma realidade cultural geral nas províncias do país. A dominação de procedência laboral é o professorado de ensino primário e secundário.
Análise Modelo Institucional:
Aspecto | Características |
| Fundação | Posterior ao estabelecimento da prática lúcida espontânea |
| Local | Nas salas da Escola Samora Machel e do Centro da CVM |
| Estruturas | Emergentes dos voluntários colaboradores, espontânea |
| Organização | Informal, em função das necessidades e possibilidades |
| Relações | Flexíveis, não regulamentadas |
| Dependência | Autonomia, autogestão, mínima formal para competir na APVB |
| Financiamento | Patrocínio em função das competições |
OBSERVACÕES
O modelo institucional corresponde mais aos agrupamentos comunitários formados para dar resposta às necessidades primárias do local que aos modelos clássicos dos clubes transferidos das sociedades euro-centrica e colonial.
A sua qualidade de aparente desestruturação e improvisação pragmática, resulta da forma possível de mobilizar os jovens nas actuais condições de desenvolvimento do país.
O enquadramento segundo padrões rijos e esquemáticos de funções e obrigações origina desistências e dependência.
Cientes das limitações e vantagens do modelo espontâneo de participação comunitária segundo características e possibilidades, estamos convictos que não é o melhor, mas o adequado à nossa realidade actual.
- CONCLUSÕES
. A transferência de modelos organizativos e metodológicos do clube clássico das sociedades desenvolvidas, não constitui impulso importante para o desenvolvimento da modalidade nas sociedades em desenvolvimento. Inclusive pode actuar como elemento de sectarismo e privilégio social contraditório com o princípio de extensão da modalidade na população.
. Para as circunstâncias reais e concretas de Moçambique, na actualidade podemos propôr como válidas os seguintes conceitos, emergentes da prática social da modalidade:
. ESPACO RECREATIVO
Local comunitário aberto com as condições mínimas para a prática desportiva da modalidade.
. CONDICIONAMENTO OBJECTIVO
Preparação e manutenção das condições materiais mínimas para o funcionamento social permanente do espaço recreativo.
. PRÁTICA ESPONTÂNEA
Jogo de voleibol, com regras simples, atendendo ao espaço existente.
. AGENTE DINAMIZADOR
Monitor, que facilita as condições para a prática espontânea, e a iniciação competitiva à modalidade.
. INICIACÃO LÚDICA GLOBAL
Ensino / aprendizagem do voleibol baseado na prática lúdica espontânea.
. COMPETICÃO PERMANENTE
Prática ensino / aprendizagem / treino do voleibol, baseado essencialmente no método global, e jogos reduzidos.
. IDENTIFICACÃO DE TALENTOS
Emergência de jogadores dotados da própria prática lúdica espontânea detectados pelos monitores.
. ORIENTACÃO DE FORMACÃO
Intervenção especializada aos monitores.
. DIRECTIVIDADE DE BASE
Qualidade de dirigentes comprometidos com o desenvolvimento da modalidade.
. SUSTENTO COMUNITÁRIO
Financiamento do desenvolvimento desportivo pelos agentes económicos interessados.
7. BIBLIOGRAFIA
. GARGANTA, J. Para uma teoria dos jogos desportivos colectivos.
. BENTO, J. Planeamento e avaliação em Educação Física, Livros Horizontes.
. Manuel de l’Entraineur, FIVB 1989.
. Preparation and Implementation of a National Plan 2001, FIVB / Plan 2001.
. Comunicados Oficiais da FMV, de Campeonatos Nacionais de Voleibol, na Beira e Chimoio, de 1992 a 1997.
ANTÓNIO CAMILO ANTÃO
FACULDADE DE CIÊNCIAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA E DESPORTO
MAPUTO
MOÇAMBIQUE































